A Obsolência Programada e a Centennial Light

O ano mal chegou na metade e eu já troquei 3 vezes a lâmpada do closet da minha esposa. Sério. Não é possível que a lâmpada dure apenas 60 dias antes de queimar, mesmo uma instalada com acendimento automático que, em tese, poderia diminuir a vida útil da lâmpada.

Na verdade, se pensar bem não faz o menor sentido, afinal, a lâmpada foi feita para fazer comutação (ligar e desligar) sempre que necessário, uma vez que não há bolso que aguente pagar uma conta de luz com lâmpadas ligadas ininterruptamente. Então, ligar e desligar, seja de forma automática ou manual, é uma condicio sine qua non da lâmpada.

Insatisfeito por ter que trocar mais uma vez a lâmpada do closet (vejam que a insatisfação diz respeito à frustração de mais uma lâmpada queimada e não por atender um pedido da minha esposa, que fique bem claro), resolvi pesquisar pelas interwebs se a GE, OSRAM ou Philips já  faziam lâmpadas que durassem mais. De repente até lâmpadas que não queimassem.

Antes mesmo de começar uma pesquisa interminável por um produto que, certamente, não existe, me dei conta que as fabricantes de lâmpadas sobrevivem pela falha total do produto que vendem. Vejam só que paradoxo: as fabricantes vendem a solução (lâmpada para iluminar), mas dependem da falha previsível desta mesma solução (queimar a lâmpada), para que possam continuar a vender a solução. Ou seja, as fabricantes sobrevivem às custas das suas próprias lâmpadas queimadas. É quase como se as fabricantes produzissem o seu produto com uma falha embutida ou uma vida útil contada.

Acontece que esse paradoxo é, na realidade, um conceito chamado de  Obsolência Programada, concebido originalmente num ensaio escrito por Bernard London em 1932, como uma forma do governo de voltar a estimular o consumo após a crise da bolsa de 1929. Entretanto, o termo ganhou o mundo pelo designer industrial Brooks Stevens numa conferência para publicitários em 1954 quando definiu a Obsolência Programada como:

Instilling in the buyer the desire to own something a little newer, a little better, a little sooner than is necessary.

A lógica por trás da Obsolência Programada é gerar volume de vendas a longo prazo, reduzindo o tempo entre compras ou encurtar o ciclo de substituição. Bom, depois de ter lido sobre esse conceito industrial e mercadológico de dar fim à produtos para que se estimule a compra de novos, descobri o movimento SOP (Sin Obsolescencia Programada) de Benito Muros que, assim como eu, se sente enganado com lâmpadas que não duram quase nada e parecem ser produzidas para queimarem rapidamente. Acontece que essa fera parece que está mais indignado do que eu, visto que ele fundou a OEP Electrics e criou lâmpadas que duram para sempre.

De acordo com Muros, as lâmpadas da OEP gastam 92% menos eletricidade que uma lâmpada incandescente, 85% em relação às alógenas e 70% em relação às fluorescentes, tem garantia de 25 anos funcionando 24 horas por dia, 365 dias por ano. Além disso, não se queimam mesmo com excesso de comutações (OEP garante 10.000 diárias), ascendem na hora, não emitem raios ultravioleta e nem infravermelho (Evitando problemas de pele e nos olhos).

Melhor de tudo é que estas novas lâmpadas não possuem metais pesados nem gases inertes que demoram para desintegrar, são 100% recicláveis e seguem todas as normas ambientais, emitindo 70% a menos de CO² e praticamente não esquentam, evitando o risco de incêndio, ao contrário das lâmpadas convencionais que gastam 95% da energia para produzir calor e 5% para iluminar.

Vou encomendar a minha.

O bacana disso tudo é que a inspiração de Muros para lutar contra a Obsolência Programada veio depois que viu existe uma lâmpada eternamente acesa que fica na sede do Corpo de Bombeiros de Livermore, na Califórnia. A tal lâmpada está lá iluminando ininterruptamente desde 1901 e neste mês de Junho comemorou-se 112 anos. Sério, festa de aniversário para uma lâmpada.

Não estou zuando. Tem até um nome foda: Centennial Light. Só na América.

Agora, uma lâmpada que nunca se apagou, desde 1901. WHAT SORCERY IS THIS?

Dizem que a duração desta lâmpada é possível pois gera iluminação pelo aquecimento filamentos de carbono, diferente das de tungstênio de hoje em dia. Entretanto, não parece que a durabilidade da lâmpada nada tem a ver com o tipo de filamento e a relação somente é feita com o uso de filamento de carbono pelo fato destas lâmpadas terem sido produzidas antes do conceito de Obsolência Programada.

O fenômeno é tão peculiar, que a lâmpada centenária possui uma webcam ligada 24 horas, filmando seu funcionamento. Por incrível que pareça, 2 webcams já quebraram, enquanto o incrível objeto continua intacto.

Ω

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Um pensamento sobre “A Obsolência Programada e a Centennial Light

  1. https://rezenhando.wordpress.com/2018/01/25/o-mal-da-obsolencia-programada/

    Usei sua curiosidade em um texto meu acima.

    Vivemos em um dilema, a Obsolência Programada é realmente necessária ou só atrapalha a vida do consumidor? Tudo depende de que lado você está sabia? Eu sou daqueles que primo por produtos resistentes e sempre tive sorte com isso (acabo sendo taxado como acumulador), mas se o mundo todo simplesmente amasse o que tem (não cansasse daquele celular que “saiu de moda” para comprar um que acabou de lançar) e as empresas lançassem produtos sem uma vida útil pré determinada, resistentes e praticamente “eternos” (um exemplo que vou dar foi na minha cidade com uma empresa) será que isso seria bom para economia como um todo?

    Para entender melhor, primeiramente o que é essa tal Obsolência Programada que esse louco tá falando? Em resumo é quando uma empresa fabrica um produto já com seu tempo de vida útil determinado, um exemplo são as TV’s que tem um tempo em horas ligadas antes de queimar. Mas hoje este conceito está muito mais em evidência do que no século passado, muito mais rápido, por isso a sensação de que os produtos de hoje duram menos do que os da década de noventa.

    Este conceito foi criado na década de trinta para estimular o consumo após a crise da bolsa de mil novecentos e vinte e nove, gerando lucros e diminuindo o tempo de compras e intervalo de substituição de algum produto. Como eram outros tempos, a geração de lixo em conjunto com outros fatores era menor, a obsolência era menos evidente, como exemplo novamente vamos usar as TV’s, aquelas de tubo que seu pai ou avô compraram há muito tempo atrás, se deu um problema foi muito (com exceção de queimar por raios, porque aí foi uma causa extra que não dependia dela para dar problema) e se você ainda tem uma “aposentada”, se ligá-la vai funcionar normalmente (se o sinal analógico em sua cidade não tiver sido desligado, mas aí é só colocar um conversor digital que estará tudo certo).

    Eu tento usar um produto até quando não dá mais, literalmente, vide meus tênis e meu Nexus 5, celular de 2013, mas que nesse período quebrei a tela por cagada própria e ao invés de simplesmente trocar de aparelho, arrumei o mesmo. O duro que fui “pego” pela tal Obsolência por causa da Google, que mesmo o aparelho hoje rodando “liso” não recebe mais atualizações desde o começo de dois mil e dezessete, um ABSURDO, só para forçar o usuário a comprar um aparelho mais atualizado.

    A obsolescência é fruto do individualismo, consumismo e do desperdício.

    Se formos analisar a tal Obsolência do lado de quem produz ela é necessária, como exemplo vou dar da empresa Bambozzi da minha cidade de Matão, até hoje ela não se recuperou do BUM que levou na virada do século muito por conta dos produtos eternos que fazia, no caso, suas máquinas de solda que nunca “davam pau”. As pessoas compravam e usavam, usavam e usavam e nunca voltavam para comprar outra. Isso é bom? Lógico que é, mas não é todo mundo que compra uma máquina de solda, então suas vendas começaram estagnar e as consequências foram fruto de uma bola d eneve, com atraso de pagamento a funcionários, demissões, etc. Não faliu, conseguiu se reinventar, mas sofre até hoje por ter feito um produto “perfeito”.

    Cada caso é um caso, mas nesta geração maluca em que vivemos a necessidade da troca muitas vezes nem é uma necessidade e sim um impulso do consumidor por novidades o que alimenta este mercado, consequentemente gerando muito mais lixo eletrônico, de forma incontrolável e inimaginável, onde algumas entidades tendo que se virar parar reciclar e as próprias empresas trabalhando no desenvolvimento de produtos novos que ao serem descartados, seus componentes possam ser reaproveitados para outras coisas, se descartados de forma correta, é um ciclo vicioso.

    Nesta década a Obsolência Programada teve “duas filhas”, a Obsolência Técnica e a Psicológica. A Obsolescência Técnica, aquela em que uma falha ou limitação mecânica do produto impede a continuidade de sua utilização, forçando uma nova compra (Iphone?). No entanto, há também a Obsolescência Psicológica, aquela em que o consumidor é incitado a comprar um novo produto mesmo que o seu aparelho atual esteja em correto funcionamento.

    Eu luto contra a Obsolência, vivencio isso no meu dia a dia. Tenho um carro de 94 e vou remendando o mesmo, uso um celular de 2013 (sendo que antes usava um Nokia N73 que só aposentou porque foi necessário utilizar Android até por causa da minha área de atuação), o computador do meu trabalho é um servidor HP que ia ser descartado e dei um UPGRADE, o meu primeiro PC eu reformei com peças que foram jogadas no lixo eletrônico e hoje ele serve como um reprodutor de filmes conectado em HDMI na TV (Netflix e Stremio) e fora outras coisas a mais.

    Hoje está desenfreada, alimentada pela ansiedade do mercado, antes, produtos tecnológicos tinham vida útil de cinco a seis anos, hoje segundo algumas pesquisas caiu para dois, então fica aí este alerta.

    Curiosidade
    Vocês sabiam que existe uma lâmpada eternamente acesa que fica na sede do Corpo de Bombeiros de Livermore, na Califórnia. A tal lâmpada está lá iluminando ininterruptamente desde 1901 e neste ano comemorará 117 anos. Não estou de zuação. Tem até um nome: Centennial Light (clique aqui e abra o site deles).

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