Guy Fawkes, Conspiração da Pólvora, Anonymous e o Problema da Primavera Brasileira

Nos últimas meses, a minha dose diária de leitura foi inflamada por conta do excesso de publicações a respeito das manifestações por um Brasil melhor, a tal a Primavera Brasileira. Depois de tanto ler, vi que as pessoas se apropriam de toda sorte de símbolos para ocupar as ruas, o que é ótimo quando se é usado com o mínimo de inteligência.

Acontece que vejo justamente o contrário nas ruas. Já repararam? Não? Bom, percebam que existe um elemento que tem ficado cada vez mais popular nas manifestações por todo o Brasil. Não são as revindicações efêmeras ou os destemperos de alguns vândalos que aproveitam para fazer estrago ou que são encomendados pelo próprio governo para destabilizar ou descreditar o movimento por um país melhor.

O elemento em comum que me refiro é a máscara com um rosto predominantemente pálido, bochechas avermelhadas proeminentes, um bigode negro e um sorriso debochado. Trata-se de uma máscara que representa muito mais do que um sorriso debochado.

Uma pena que poucos tenham noção do simbolismo que a máscara carrega. Pior ainda são os outros tantos que entenderam tudo errado.

O uso indiscriminado deste rosto pálido nas manifestações da Primavera Brasileira demonstra a falta de intimidade da povo com as ruas para revindicar melhorias e, mais ainda, a total ignorância pela história das manifestações, principalmente nos países anglo-saxões. Talvez o uso da máscara seja uma associação vazia aos protestos, ou ao grupo Anonymous que usou a máscara pela primeira vez. Ou ao filme V for Vendetta.

Beneath this mask there is more than flesh. Beneath this mask there is an idea, Mr. Creedy, and ideas are bulletproof.

Fico profundamente incomodado que uma gigantesca parcela destes mascarados não conhecem a verdadeira origem do artefato e nem o simbolismo presente nesse rosto. Essa ignorância contribuiu para a banalização do símbolo, a ponto da peça ser usada protestos pacíficos. Isso é de uma contradição louca, total contrassenso. A máscara é uma metáfora para um símbolo maior, mas que tem no seu âmago a derrubada de governos totalitários.

Agora, o que ou quem a máscara representa? Do que se trata o filme V for Vendetta? Quem são os Anonymous? E por que a máscara é tão famosa em manifestações?

Guy Fawkes e a Conspiração da Pólvora

A máscara vista no filme V for Vendetta tem sua origem durante o reinado do monarca protestante Jaime I, conhecido por suas políticas opressoras contra a população católica. Porém, o personagem principal é o britânico Guy Fawkes, principal responsável por uma das maiores e mais famosas conspirações da história.

Após uma conversão ao catolicismo e uma temporada na Espanha lutando na Guerra dos Oito Anos (que resultou na independência da Holanda, antes uma colônia espanhola), Guy Fawkes retornou à Inglaterra derrotado. Na volta, Fawkes buscou apoio do governo espanhol para promover um levante católico na própria Inglaterra. Claro que os espanhóis se recusaram.

Mesmo assim, Fawkes não tinha mudado de ideia e, com apoio de seu amigo Thomas Wintour, conheceu Robert Catesby e seu plano para assassinar o rei Jaime I e restaurar a monarquia católica. A ideia era simplesmente genial: explodir o Parlamento Inglês, plantando trinta e seis barris de pólvora nos túneis que passavam logo abaixo da Casa.

Ao mesmo tempo que a ideia era genial, era igualmente perigosa. A explosão prevista seria tão violenta que os conspiradores temiam que muitos inocentes, especialmente católicos, acabassem morrendo. Para evitar esse dano colateral ou fogo amigo (não sei), os conspiradores distribuíram silenciosamente cartas anônimas a alguns defensores da causa católica pedindo que evitassem as proximidades do Parlamento.

Remember, remember the 5th of November. The gunpowder treason and plot. I know of no reason why the gunpowder treason should ever be forgot.

Obviamente que as cartas foram uma cagada de ideia e, para o infortúnio dos conspiradores, o conteúdo da carta logo chegou aos ouvidos do rei Jaime I, que imediatamente ordenou uma revista completa dos túneis sob o Parlamento. Não deu outra: Guy Fawkes foi pego com batom na cueca.

Guy Fawkes não causaria um impacto na história se não fosse pela sua coragem ao resistir a tortura do interrogatório, que impressionou o rei Jaime I e o chamou de “um homem de resolução romana”. No entanto, a caminho da forca, Fawkes escapa dos guardas e se joga de uma escadaria, quebrando o pescoço e evitando o agonia da execução.

Os livros batizaram o evento como a Conspiração da Pólvora o que criou uma tradição mantida até os dias de hoje: todo o dia 5 de novembro (data da prisão de Guy Fawkes) a Rainha vai até o Parlamento Inglês e ordena, simbolicamente, uma revista dos túneis subterrâneos. Nas ruas, os ingleses queimam bonecos do conspirador. Conspirador este que se tornou um símbolo na graphic novel V for Vendetta de Alan Moore e David Lloyd.

V for Vendetta

Inspirando-se diretamente na Conspiração da Pólvora, na década de 1980, o quadrinista Alan Moore nos presenteou com a graphic novel V for Vendetta, e, em 2005, a história foi adaptada ao cinema pelos Wachowskis e a obra se popularizou de vez.

A trama é passada numa versão distópica da Inglaterra, vencedora de uma guerra nuclear, mas que transformando o país numa potência controlada a ferro e fogo por um regime fascista. Nesse contexto, aparece “V”, um revolucionário anarquista mascarado que planeja uma conspiração quase poética para explodir o Parlamento Inglês.

More than 400 years ago a great citizen wished to embed the fifth of November forever in our memory. His hope was to remind the world that fairness, justice, and freedom are more than words, they are perspectives.

Por um acidente, “V” é transformado numa máquina de matar após experimentos realizados num campo de concentração nessa Inglaterra fictícia. Além dos poderes (quase) sobre-humanos, V é dotado de grande intelecto artístico, cultural e filosófico, o que lhe dá subsídio para iniciar um plano de caça sistemática dos líderes do regime, inflamar o povo a se voltar contra o Estado e, é claro, explodir o Parlamento. Explodir o Parlamento, neste caso, é apenas a cereja do no topo do bolo. A ideia aqui é a ideia em si, a ideia como um combustível para que o povo saia da inércia e faça o governo trabalhar pelo o povo e não contra.

Por conta dos experimentos sofridos, “V” tem o rosto destruído por queimaduras e precisa esconder a sua face. Aproveitando essa necessidade, V usa da sua deficiência para constantemente lembrar ao regime fascista o seu plano maior. V esconde o rosto com uma máscara que lembra as feições de Guy Fawkes.

O resultado disso tudo é a revolta do povo contra um Estado corrupto. Assim, V for Vendetta se tornou uma espécie de “obra sagrada” que norteia vários grupos ativistas pelo mundo. O mais conhecido deles é o Anonymous.

Anonymous e o Problema da Primavera Brasileira

É dificil descrever o Anonymous, mas o “grupo” parece se resumir à uma rede interligada de ativistas virtuais (ou hacktivistas) que opera através de uma estrutura descentralizada sob o conceito de que todos os seus membros formam uma espécie de “consciência global”.

O grupo surgiu como uma brincadeira perdida lá no fórum 4chan e, inicialmente, a ideia da brincadeira se resumia em desativar coordenadamente, apenas para o lulz, sites de filiação governamentais ou corporativistas. Em 2008, quando o grupo engrossou o caldo e se voltou contra a Igreja da Cientologia, os “Anon’s” (como seus membros são chamados) alcançaram fama internacional.

We are Anonymous. We are Legion. We do not forgive. We do not forget. Expect us.

A fama dos Anon’s é resultado da divulgação de ideias libertárias, denúncia de esquemas de corrupção e uma caçada bem sucedida de uma quadrilha de pedófilos, porém nem tudo são flores, o grupo também já foi associado a vários atos criminosos, como invasões de sites governamentais e exposição de conteúdo sigiloso, o que rendeu a denominação de “cyber-terroristas” (cyber? vivemos ainda em 1980?).

De toda forma, o Anonymous mudou a forma de como se articula protestos. Não é a toa que a revista Time os elegeu como uma das 100 entidades mais influentes do planeta, influência esta que vem sendo marcada pelo uso da máscara de Guy Fawkes estilizada pela graphic novel – e popularizada pelo filme – V for Vendetta, como se pode ver em diversos vídeos de divulgação, avatares ou até durante manifestações.

Aliás, V for Vendetta serve ao grupo muito além da máscara de “V”. As citações, ideologias, cenas do filme, personagens e até a trilha sonora do filme são frequentemente estampados em sites invadidos pelo grupo. O rosto de Guy Fawkes só ganhou as ruas e tornou-se sinônimo de manifestação quando dois grandes eventos mudaram para sempre os rumos de várias democracias do planeta: a Primavera Árabe e Occupy Wall Street.

Os protestos ocorridos em 2011 no Oriente Médio batizados de Primavera Árabe, movimento que varreu o mundo árabe e derrubou vários governos “legítimos” de 20 e tantos países nasceu quando o vendedor tunisiano Mohamed Bouazizi resolveu dar uma de Johnny Storm e lambeu o próprio corpo com fogo como uma forma de protesto após ser humilhado e ter seus bens confiscados pelo governo. É claro que Bouazizi não tinha imaginado que seus atos proporcionariam combustível (;D) para a onda de protestos que seriam deflagrados.

Como o ocidente não pode ficar para trás, o clamor árabe pela democracia inspirou o movimento Occupy Wall Street. Em especial, quase no fim de 2011, o protesto “Occupy Wall Street” (Ocupe Wall Street) levou milhares de pessoas ao distrito financeiro de Nova York para protestar contra a desigualdade econômica e social dos Estados Unidos. A repercussão foi imensa e centenas de outras cidades ao redor do mundo repetiram a mobilização.

O elemento em comum da Primavera Árabe e o movimento Occupy é o Anonymous que, inspirado em V for Vendetta, transcendeu os ideais libertários através da comoção popular nas redes sociais, usando a máscara apenas como símbolo. A ideia por trás do Anonymous, Primavera Árabe e Occupy é a derrubada de governos totalitários por um povo insatisfeito com décadas de desigualdades.

A máscara representa uma ideia. Uma ideia que começou com Guy Fawkes, popularizado com elementos da ficção e disseminado pela internet para escapar dos livros de história. Uma ideia de que todo povo é livre para exigir o melhor daqueles que os representam no poder, inclusive a sua renúncia. Uma ideia de que o poder emana do povo, e do povo apenas. Uma ideia que permite uma luta. Uma ideia de que o governo é do povo, e não o contrário.

Em 20 de Janeiro de 1961, John F. Kennedy foi muito feliz no seu Inaugural Address, quando disse com clareza qual é o papel do povo:

And so, my fellow Americans: ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country.

Ideia. É justamente neste ponto que a tal Primavera Brasileira falha. Ninguém no Brasil entendeu que sem uma ideia, não temos luta. Só sobra o vandalismo e isso não constrói um pais melhor. Aliás, o vandalismo só usa a máscara para cobrir o rosto, sem saber o que o símbolo representa. Ainda, movimentos pacíficos que usam esta máscara não percebem que anarquia nasce de um povo em guerra. Um povo em guerra com si mesmo, por não aceitar mais testemunhar um oceano de dificuldades e desigualdades. Um povo que luta por dias melhores, pronto para derrubar um governo que não nos presta.

O problema da nossa Primavera Brasileira é que a maioria dos envolvidos querem uma desculpa para fugir do trabalho. A Primavera Brasileira quer fazer barulho para baixar a tarifa do ônibus, reclamar de ingressos caros para assistir a copa, mas esquecem que estes são problemas periféricos e que uma vez resolvidos o movimento perde fôlego e desaparece. Precisamos entender que está na hora de não aceitar os desmandos dos governantes e que abusam do poder, dado pelo povo, para proveitos particulares. A ideia é que o Brasil é nosso e não de quem o governa.

No dia que entenderem que a luta vai começar de verdade com uma ideia sólida que representa a insatisfação de todo o povo, será impossível não ser ouvido, sem necessidade de quebra-quebra, arruaça ou baderna.

Ideias são à prova de balas, não importa a máscara que se use. De repente, no dia que tivermos uma, nem precisaremos de máscara.

Se tiverem interesse, podem achara a graphic novel aqui ou o filme aqui.

Ω

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