Guy Fawkes, Conspiração da Pólvora, Anonymous e o Problema da Primavera Brasileira

Nos últimas meses, a minha dose diária de leitura foi inflamada por conta do excesso de publicações a respeito das manifestações por um Brasil melhor, a tal a Primavera Brasileira. Depois de tanto ler, vi que as pessoas se apropriam de toda sorte de símbolos para ocupar as ruas, o que é ótimo quando se é usado com o mínimo de inteligência.

Acontece que vejo justamente o contrário nas ruas. Já repararam? Não? Bom, percebam que existe um elemento que tem ficado cada vez mais popular nas manifestações por todo o Brasil. Não são as revindicações efêmeras ou os destemperos de alguns vândalos que aproveitam para fazer estrago ou que são encomendados pelo próprio governo para destabilizar ou descreditar o movimento por um país melhor.

O elemento em comum que me refiro é a máscara com um rosto predominantemente pálido, bochechas avermelhadas proeminentes, um bigode negro e um sorriso debochado. Trata-se de uma máscara que representa muito mais do que um sorriso debochado.

Uma pena que poucos tenham noção do simbolismo que a máscara carrega. Pior ainda são os outros tantos que entenderam tudo errado.

O uso indiscriminado deste rosto pálido nas manifestações da Primavera Brasileira demonstra a falta de intimidade da povo com as ruas para revindicar melhorias e, mais ainda, a total ignorância pela história das manifestações, principalmente nos países anglo-saxões. Talvez o uso da máscara seja uma associação vazia aos protestos, ou ao grupo Anonymous que usou a máscara pela primeira vez. Ou ao filme V for Vendetta.

Beneath this mask there is more than flesh. Beneath this mask there is an idea, Mr. Creedy, and ideas are bulletproof.

Fico profundamente incomodado que uma gigantesca parcela destes mascarados não conhecem a verdadeira origem do artefato e nem o simbolismo presente nesse rosto. Essa ignorância contribuiu para a banalização do símbolo, a ponto da peça ser usada protestos pacíficos. Isso é de uma contradição louca, total contrassenso. A máscara é uma metáfora para um símbolo maior, mas que tem no seu âmago a derrubada de governos totalitários.

Agora, o que ou quem a máscara representa? Do que se trata o filme V for Vendetta? Quem são os Anonymous? E por que a máscara é tão famosa em manifestações?

Guy Fawkes e a Conspiração da Pólvora

A máscara vista no filme V for Vendetta tem sua origem durante o reinado do monarca protestante Jaime I, conhecido por suas políticas opressoras contra a população católica. Porém, o personagem principal é o britânico Guy Fawkes, principal responsável por uma das maiores e mais famosas conspirações da história.

Após uma conversão ao catolicismo e uma temporada na Espanha lutando na Guerra dos Oito Anos (que resultou na independência da Holanda, antes uma colônia espanhola), Guy Fawkes retornou à Inglaterra derrotado. Na volta, Fawkes buscou apoio do governo espanhol para promover um levante católico na própria Inglaterra. Claro que os espanhóis se recusaram.

Mesmo assim, Fawkes não tinha mudado de ideia e, com apoio de seu amigo Thomas Wintour, conheceu Robert Catesby e seu plano para assassinar o rei Jaime I e restaurar a monarquia católica. A ideia era simplesmente genial: explodir o Parlamento Inglês, plantando trinta e seis barris de pólvora nos túneis que passavam logo abaixo da Casa.

Ao mesmo tempo que a ideia era genial, era igualmente perigosa. A explosão prevista seria tão violenta que os conspiradores temiam que muitos inocentes, especialmente católicos, acabassem morrendo. Para evitar esse dano colateral ou fogo amigo (não sei), os conspiradores distribuíram silenciosamente cartas anônimas a alguns defensores da causa católica pedindo que evitassem as proximidades do Parlamento.

Remember, remember the 5th of November. The gunpowder treason and plot. I know of no reason why the gunpowder treason should ever be forgot.

Obviamente que as cartas foram uma cagada de ideia e, para o infortúnio dos conspiradores, o conteúdo da carta logo chegou aos ouvidos do rei Jaime I, que imediatamente ordenou uma revista completa dos túneis sob o Parlamento. Não deu outra: Guy Fawkes foi pego com batom na cueca.

Guy Fawkes não causaria um impacto na história se não fosse pela sua coragem ao resistir a tortura do interrogatório, que impressionou o rei Jaime I e o chamou de “um homem de resolução romana”. No entanto, a caminho da forca, Fawkes escapa dos guardas e se joga de uma escadaria, quebrando o pescoço e evitando o agonia da execução.

Os livros batizaram o evento como a Conspiração da Pólvora o que criou uma tradição mantida até os dias de hoje: todo o dia 5 de novembro (data da prisão de Guy Fawkes) a Rainha vai até o Parlamento Inglês e ordena, simbolicamente, uma revista dos túneis subterrâneos. Nas ruas, os ingleses queimam bonecos do conspirador. Conspirador este que se tornou um símbolo na graphic novel V for Vendetta de Alan Moore e David Lloyd.

V for Vendetta

Inspirando-se diretamente na Conspiração da Pólvora, na década de 1980, o quadrinista Alan Moore nos presenteou com a graphic novel V for Vendetta, e, em 2005, a história foi adaptada ao cinema pelos Wachowskis e a obra se popularizou de vez.

A trama é passada numa versão distópica da Inglaterra, vencedora de uma guerra nuclear, mas que transformando o país numa potência controlada a ferro e fogo por um regime fascista. Nesse contexto, aparece “V”, um revolucionário anarquista mascarado que planeja uma conspiração quase poética para explodir o Parlamento Inglês.

More than 400 years ago a great citizen wished to embed the fifth of November forever in our memory. His hope was to remind the world that fairness, justice, and freedom are more than words, they are perspectives.

Por um acidente, “V” é transformado numa máquina de matar após experimentos realizados num campo de concentração nessa Inglaterra fictícia. Além dos poderes (quase) sobre-humanos, V é dotado de grande intelecto artístico, cultural e filosófico, o que lhe dá subsídio para iniciar um plano de caça sistemática dos líderes do regime, inflamar o povo a se voltar contra o Estado e, é claro, explodir o Parlamento. Explodir o Parlamento, neste caso, é apenas a cereja do no topo do bolo. A ideia aqui é a ideia em si, a ideia como um combustível para que o povo saia da inércia e faça o governo trabalhar pelo o povo e não contra.

Por conta dos experimentos sofridos, “V” tem o rosto destruído por queimaduras e precisa esconder a sua face. Aproveitando essa necessidade, V usa da sua deficiência para constantemente lembrar ao regime fascista o seu plano maior. V esconde o rosto com uma máscara que lembra as feições de Guy Fawkes.

O resultado disso tudo é a revolta do povo contra um Estado corrupto. Assim, V for Vendetta se tornou uma espécie de “obra sagrada” que norteia vários grupos ativistas pelo mundo. O mais conhecido deles é o Anonymous.

Anonymous e o Problema da Primavera Brasileira

É dificil descrever o Anonymous, mas o “grupo” parece se resumir à uma rede interligada de ativistas virtuais (ou hacktivistas) que opera através de uma estrutura descentralizada sob o conceito de que todos os seus membros formam uma espécie de “consciência global”.

O grupo surgiu como uma brincadeira perdida lá no fórum 4chan e, inicialmente, a ideia da brincadeira se resumia em desativar coordenadamente, apenas para o lulz, sites de filiação governamentais ou corporativistas. Em 2008, quando o grupo engrossou o caldo e se voltou contra a Igreja da Cientologia, os “Anon’s” (como seus membros são chamados) alcançaram fama internacional.

We are Anonymous. We are Legion. We do not forgive. We do not forget. Expect us.

A fama dos Anon’s é resultado da divulgação de ideias libertárias, denúncia de esquemas de corrupção e uma caçada bem sucedida de uma quadrilha de pedófilos, porém nem tudo são flores, o grupo também já foi associado a vários atos criminosos, como invasões de sites governamentais e exposição de conteúdo sigiloso, o que rendeu a denominação de “cyber-terroristas” (cyber? vivemos ainda em 1980?).

De toda forma, o Anonymous mudou a forma de como se articula protestos. Não é a toa que a revista Time os elegeu como uma das 100 entidades mais influentes do planeta, influência esta que vem sendo marcada pelo uso da máscara de Guy Fawkes estilizada pela graphic novel – e popularizada pelo filme – V for Vendetta, como se pode ver em diversos vídeos de divulgação, avatares ou até durante manifestações.

Aliás, V for Vendetta serve ao grupo muito além da máscara de “V”. As citações, ideologias, cenas do filme, personagens e até a trilha sonora do filme são frequentemente estampados em sites invadidos pelo grupo. O rosto de Guy Fawkes só ganhou as ruas e tornou-se sinônimo de manifestação quando dois grandes eventos mudaram para sempre os rumos de várias democracias do planeta: a Primavera Árabe e Occupy Wall Street.

Os protestos ocorridos em 2011 no Oriente Médio batizados de Primavera Árabe, movimento que varreu o mundo árabe e derrubou vários governos “legítimos” de 20 e tantos países nasceu quando o vendedor tunisiano Mohamed Bouazizi resolveu dar uma de Johnny Storm e lambeu o próprio corpo com fogo como uma forma de protesto após ser humilhado e ter seus bens confiscados pelo governo. É claro que Bouazizi não tinha imaginado que seus atos proporcionariam combustível (;D) para a onda de protestos que seriam deflagrados.

Como o ocidente não pode ficar para trás, o clamor árabe pela democracia inspirou o movimento Occupy Wall Street. Em especial, quase no fim de 2011, o protesto “Occupy Wall Street” (Ocupe Wall Street) levou milhares de pessoas ao distrito financeiro de Nova York para protestar contra a desigualdade econômica e social dos Estados Unidos. A repercussão foi imensa e centenas de outras cidades ao redor do mundo repetiram a mobilização.

O elemento em comum da Primavera Árabe e o movimento Occupy é o Anonymous que, inspirado em V for Vendetta, transcendeu os ideais libertários através da comoção popular nas redes sociais, usando a máscara apenas como símbolo. A ideia por trás do Anonymous, Primavera Árabe e Occupy é a derrubada de governos totalitários por um povo insatisfeito com décadas de desigualdades.

A máscara representa uma ideia. Uma ideia que começou com Guy Fawkes, popularizado com elementos da ficção e disseminado pela internet para escapar dos livros de história. Uma ideia de que todo povo é livre para exigir o melhor daqueles que os representam no poder, inclusive a sua renúncia. Uma ideia de que o poder emana do povo, e do povo apenas. Uma ideia que permite uma luta. Uma ideia de que o governo é do povo, e não o contrário.

Em 20 de Janeiro de 1961, John F. Kennedy foi muito feliz no seu Inaugural Address, quando disse com clareza qual é o papel do povo:

And so, my fellow Americans: ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country.

Ideia. É justamente neste ponto que a tal Primavera Brasileira falha. Ninguém no Brasil entendeu que sem uma ideia, não temos luta. Só sobra o vandalismo e isso não constrói um pais melhor. Aliás, o vandalismo só usa a máscara para cobrir o rosto, sem saber o que o símbolo representa. Ainda, movimentos pacíficos que usam esta máscara não percebem que anarquia nasce de um povo em guerra. Um povo em guerra com si mesmo, por não aceitar mais testemunhar um oceano de dificuldades e desigualdades. Um povo que luta por dias melhores, pronto para derrubar um governo que não nos presta.

O problema da nossa Primavera Brasileira é que a maioria dos envolvidos querem uma desculpa para fugir do trabalho. A Primavera Brasileira quer fazer barulho para baixar a tarifa do ônibus, reclamar de ingressos caros para assistir a copa, mas esquecem que estes são problemas periféricos e que uma vez resolvidos o movimento perde fôlego e desaparece. Precisamos entender que está na hora de não aceitar os desmandos dos governantes e que abusam do poder, dado pelo povo, para proveitos particulares. A ideia é que o Brasil é nosso e não de quem o governa.

No dia que entenderem que a luta vai começar de verdade com uma ideia sólida que representa a insatisfação de todo o povo, será impossível não ser ouvido, sem necessidade de quebra-quebra, arruaça ou baderna.

Ideias são à prova de balas, não importa a máscara que se use. De repente, no dia que tivermos uma, nem precisaremos de máscara.

Se tiverem interesse, podem achara a graphic novel aqui ou o filme aqui.

Ω

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Neymar. Ano Zero.

Sempre defendi a necessidade dos “craques” do futebol nacional irem para o exterior e experimentarem outras defesas, outros gramados e outras competições. A novidade sempre será tanto empecilho ou oportunidade. Os medíocres cairão frente ao novo justamente por conta de medo, já os grandes triunfarão frente ao desconhecido e vão colher as glórias do mundo do futebol.

Neymar é o mais qualificado a ganhar, de uma vez por todas, o mundo do futebol. Ficar no Santos ad eternum, fazia sentido na época do Pelé, agora não mais. Neymar precisa se aventurar num futebol que não conhece os atalhos e nem as malandragens. Ele só tem a ganhar, seja com um aumento de qualidade no futebol jogado, como os milhões de dólares e lambos e ‘raris da vida. Bruna Marquezine já era, ao meu ver.

Se eu tivesse na pele dele, uma das cláusulas do meu contrato com o Barça seria a entrega de uma LaFerrari no dia da apresentação.

E, mesmo que não costumo curtir muito o que o Lédio Carmona fala, dessa vez gostei do que li na visão dele sobre o mesmo assunto, em especial no trecho abaixo:

Neymar nunca dirá que quer ir embora. Ele é tão grato a quem lhe estendeu a mão, que não tem coragem de dizer que pensa em mudar. Mas o desejo está estampado no seu semblante. No sorriso que era escancarado e agora é quase técnico e frio. E não existe melhor momento para isso. Tanto Barcelona, Real Madrid, Manchester United e Bayern Munique começarão novos ciclos. E Neymar terá o privilégio de chegar no marco zero de qualquer um desses clubes. A hora é essa. E será bom para todos. Foi excepcional enquanto durou.

Foi bom mesmo. Mas chega. Vai zoar os gringos agora.

Ω

 

Teoria McDonald’s

Jon Bell, autor do What I Learned Building…, usa um truque com seus colegas de trabalha quando estão tentando decidir em qual restaurante vão almoçar mas ninguém tem ideia aonde ir. Ele sempre recomenda McDonald’s.

Só de mencionar os Arcos Dourados, todos no grupo decidem em uníssono que McDonald’s não rola e, seguidamente, começam a sugerir outros destinos diferentes do restaurante do palhaço de cabelo vermelho (aterrorizador, se pensar que o McDonald’s tem como público-alvo a molecada… divagando…).

A idéia por trás deste “truque” é quebrar a inércia de um grupo que precisa decidir e ninguém tem, aparentemente, coragem de dar o primeiro pitaco. Sugerir um lugar que vende a comida mais não-saudável (não menos delícia se pensar no Big Mac…), “automagicamente” (obrigado Steve) faz com que as pessoas reajam sugerindo algo melhor. Ou seja, sugerir uma idéia merda que envolve todos num grupo gera a necessidade alguém sugerir algo melhor, claramente por uma preocupação pessoal, mas que se estende ao  grupo:

An interesting thing happens. Everyone unanimously agrees that we can’t possibly go to McDonald’s, and better lunch suggestions emerge. Magic!

It’s as if we’ve broken the ice with the worst possible idea, and now that the discussion has started, people suddenly get very creative. I call it the McDonald’s Theory: people are inspired to come up with good ideas to ward off bad ones.

Em resumo, o grande problema que é resolvido com esta teoria é a dificuldade de se “dar o primeiro passo”, especialmente quando se trata de um processo criativo. A Nike já sabe disso com o slogan “Just Do It” e parece que Steve Jobs já entendia isso também, como lembrou o próprio Jon Bell:

Go!

Genial. Apenas uma palavra tem o potencial de fazer você dar o primeiro passo sem medo e de se sabotar.

Se pensar bem, a dificuldade de dar o primeiro passo pode ser visto em qualquer lugar, desde o processo criativo até chegar numa mina na noitada. Quantas vezes me vi pensando e repensando no que falar para chegar junto triunfalmente e quando me dei conta, outro malandro já tinha “ido”. Ainda bem que entendi como dar o primeiro passo sem overthink, mesmo que inconscientemente, e fiz uma blitzkrieg e conquistei a linda Renata Pitta, que é uma consultora de imagem e estilo e que não pode perder tempo com overthink.

Se ligaram como fiz um merchan de leve para a minha esposa? Aliás, chequem o trabalho dela, recomendo.

Ω

Espaço, robôs e a nova nota $5 dólares do Canadá

O Banco Central do Canadá acabou de divulgar como serão as novas notas de $5 e $10 dólares, que serão lançadas em novembro deste ano.

O Canadá usará a nota de $5 como um tributo às contribuições do país no desenvolvimento espacial (construção do ônibus espacial e a Estação Espacial Internacional apresentando, ao lado da imagem do Sir Wilfrid Laurier, Primeiro Ministro do Canada entre 1896 e 1911, imagens do Canadarm2 e Dextre, um robô.

Você leu certo mano. Ao lado de um político temos um ROBÔ. Sensacional.

O melhor dessa história é a ironia neste novo design, como bem disse John Fingas do Engadget:

The only thing dampening the awesomeness is the irony of it all, as it’s an ode to technology in a format that’s being destroyed by technology.

Alegria para os nerds.

Ω

América não é mais a mesma. Estragram a nota $100 obamas

Quem me conhece sabe como admiro a história e cultura dos Estados Unidos da América, especialmente a simbologia encontrada na nota do dólar americano.

Acabei de ver o novo design da nota de $100 e achei que ficou bem caída. Vejam só.

Ω

Teoria das Janelas Partidas

A teoria das Janelas Partidas (ou Quebradas) é baseado no ensaio de criminologia e sociologia urbana chamado de Broken Windows (PDF) de James Q. Wilson e George L. Kelling que busca demonstrar que mesmo um leve ato de desordem pode escalonar para o vandalismo de um bairro todo:

Second, at the community level, disorder and crime are usually inextricably linked, in a kind of developmental sequence. Social psychologists and police officers tend to agree that if a window in a building is broken and is left unrepaired, all the rest of the windows will soon be broken. This is as true in nice neighborhoods as in run-down ones. Window-breaking does not necessarily occur on a large scale because some areas are inhabited by determined window-breakers whereas others are populated by window-lovers; rather, one unrepaired broken window is a signal that no one cares, and so breaking more windows costs nothing.

Vejam como o descaso muitas vezes é a razão do aumento da criminalidade e não a falta de policiamento. Para os cariocas, a Praça do Ó (Praça São Sebastião, no Jardim Oceânico) é um claro exemplo disso. Hoje em dia, toda noite a praça é tomada por viciados em drogas e prostitutas, em razão do aparente abandono do entorno (durante o dia a praça ainda é utilizada para uma feira de artesanato).

Tudo começou quando a Boate Zodíaco fechou e foi abandonada (Google Street View).

O tal artigo serviu de base para o livro Fixing Broken Windows: Restoring Order And Reducing Crime In Our Communities de George L. Kelling e Catherine Coles que, por sua vez, afirma que para se ter mais chances de prevenir o vandalismo é necessário que resolva os problemas quando ainda são pequenos. O ato de reparar ou consertar as janelas serve como uma metáfora e a ideia se aplica, por exemplo, ao limpar as ruas sempre que estiverem sujas, de modo que possa prevenir problemas de escoagem da água das chuvas, empoçamentos, aparecimento de vetores de doenças etc.

O cuidado com os entornos tendem, na teoria, a reprimir ou diminuir o crime de pequena escala ou comportamento anti-social, com o objetivo final de prevenir o crime de grande escala.

Ω

Daqui a 5 anos?

Outro dia pensei na pergunta infame de onde nos vemos daqui a 5 anos e cheguei a conclusão de que é uma péssima ideia planejar tanto tempo na frente.

Frequentemente, em entrevistas de emprego ou avaliação anual de performance da companhia, somos perguntados: Onde você se vê daqui a 5 anos? A pergunta parece um exercício interessante de planejamento, mas no fundo se mostra irrelevante para se alcançar um objetivo com sucesso. Adoraria poder responder isso aqui, mas não sei se o resultado seria dos melhores.

Sabemos que para planejar um objetivo é preciso avaliar o risco da falha. Quem estuda engenharia de produção aprende que o risco, geralmente, aumenta a partir de 3 fatores: (a) o nível de controle que você tem sobre suas variáveis ​​do ambiente, (b) a quantidade de variáveis ​​que você tem que controlar e (c) a quantidade de tempo que você tem que manter essas variáveis ​​sob controle.

É praticamente impossível conseguir considerar todas as variáveis da vida em razão da sua natureza subjetiva. Ainda, por serem tantos os fatores imprevisíveis como a morte, sentimentos e emoções, que planejar como será a nossa semana já seria uma tarefa hercúlea, quanto mais um plano de 5 anos para alcançar um objetivo. Certamente um plano assim seria constantemente minado por frustração, dificuldades de controlar as diversas variáveis e impedí-las de falharem. Acredito que nenhuma pessoa suficientemente inteligente possar achar que fazer tal plano seria uma boa ideia.

Alguém poderia dizer que um plano de 5 anos tem suas vantagens se, por exemplo, utilizarmos o algorítimo de backtracking para decisões erradas, separando do resultado apenas a parte boa e aplicando-a na próxima decisão. Não me parece o melhor caminho, pois a frustração permanece presente e a demora em alcançar o objetivo não tornaria esse approach vantajoso. Talvez se utilizarmos a abordagem do Greedy Algorithm poderia resultar num desfecho melhor. A ideia desta abordagem é atacar os problemas de maneira gradual sempre decidindo baseado em fatos disponíveis, e não em pura especulação. A soma de resultados certos e graduais deveria levar a um objetivo satisfatório. Assim, ao invés de tentar prevê o futuro sem saber em quantas milhares de variáveis a se considerar, o melhor seria planejar gradualmente com base em fatos conhecidos. Dessa forma, as decisões seriam sempre mais acertadas. menos suscetíveis de falha ou frustração. É claro que esta abordagem nem sempre levará ao objetivo idealizado, mas certamente levará a uma série de resultados satisfatórios e complementares que, no fim, poderão ser considerados como o objetivo idealizado.

Se algum dia for perguntado onde eu estarei daqui a cinco anos, direi que uma pessoa inteligente jamais faria tal plano. Claro que explicarei como a premissa de planejar algo tão na frente pode não ser a melhor coisa a fazer. Diria que o mais sensato seria traçar diversas metas curtas e realizáveis em curto prazo, sempre levando em conta os fatos e informações disponíveis naquele momento, o que poderia resultar numa vida com menos chance para falha e frustração e, em contrapartida, tornaria a vida mais leve de se viver.

A única dúvida que fica é se a pessoa que faz esta pergunta quer estimular um raciocínio novo e não-ortodoxo ou se ela acha mesmo que é importante ter um plano (fadado ao fracasso) para os próximos 5 anos?

Onde me vejo daqui a 5 anos? Não sei e isso é bom.

Ω

Novo design do New York Times

Há tempos que os sites de notícia parecem sofrer designs ultrapassados que se preocupam mais com a quantidade de clicks e ads apresentados aos leitores, o que tem ajudado a diminuir o número de assinantes. Nem vou comentar sobre o portal G1 que, apesar de providenciar o melhor fluxo de notícia do Brasil (muitas delas péssimas e de cunho sensacionalista), apresenta um dos piores designs que não ajuda em nada na leitura, começando pelo espaçamento da fonte.

O grande debate é o equilíbrio entre a estética e apelo visual e a experiência de leitura do usuário.

Hoje encontrei o protótipo de redesign do New York Times, que repensa como cada história é consumida, como a notícia é conectada e recupera o conceito da notícia ser o principal elemento do design.  Assim, as histórias ganham scroll infinito, todos os elementos de interação, como fotos, vídeos, infográficos, são incorporadas no corpo do texto. Ainda, as páginas ficam mais leves com o aumento de espaço em branco e a eliminação da enorme quantidade de links que ficavam ao redor da história.

Como disse no começo deste post, a regra para a maioria dos portais de notícia é dar ao leitor o número máximo de links de uma só vez, fazendo com que cliquem infinitamente (e rendendo estatísticas de clicks). O NYT quebra este paradigma adotando um design que privilegia experiências mais minimalistas, limpas e intuitivas, em clara influência dos usuários que buscam mais suavidade e experiências confortáveis ao lerem as notícias e com a ascensão de UI mínimas e clean dos mobiles.

Outra grande sacada do NYT foi trazer os comentários para o começo do texto e próximo ao autor da notícia, que dar um peso de igualdade e mesma importância, tanto para a notícia quanto para os comentários. É quase como se a notícia estivesse “no meio” das conversas, uma dando continuidade à outra.

Existe um menu invisível com o conteúdo dividido/distribuído em categorias, mas com uma navegação mais personalizada e natural. A opção de busca e seções tradicionais é mantida, como parte da tradição do NYT que sempre prega transparência e abertura de todos os fatos reportados no jornal. A possibilidade de marcar categorias como favoritos torna a experiência do usuário mais íntima e próximas, sem ter que fazer uso de algoritmos que preveem e escolhem os conteúdos que podemos achar interessante.

Aqui vale um comentário acerca destes algorítimos de conteúdo direcionado: Até que ponto é vantagem que nos seja indicado conteúdo baseado no nosso hábito de leitura e navegação? O tendão de Aquiles deste conceito é a impossibilidade de se chegar a assuntos novos e inéditos que estão fora dos nossos hábitos de leitura e navegação, uma vez que o algorítimo jamais irá me sugerir um conteúdo completamente diferente daquele que estou habituado.

O melhor de tudo nesta nova proposta do NYT é a manutenção da filosofia do jornal que a publicação seja a mesma, confiável e que propicie uma experiência que permita engajar os leitores, independentemente se você um iPhone, um Android, um notebook ou web app.

A curiosidade já deve estar matando, mas o redesign do NYT é um protótipo em beta aberto a alguns usuários que pedirem acesso através deste site.

Ω

Brasil, o pais do futuro só que ao contrário.

Irmãos, fomos abençoados pelos acontecimentos tidos ontem em Brasília. Os deputados da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDH), numa grande piada interna, elegeram como presidente o Senhor (pequei?) Pastor Evangélico AND Deputado nas horas vagas, Marco Feliciano.

Fun Fact nº 1: Criaram uma comissão para discutir assuntos relacionados a direitos humanos e… Wait for it… MINORIAS e elegeram como presidente uma pessoa que tem como cruzada a destruição destas mesmas minoria que agora representa. Quén?! Então, o Sr. (de novo) Feliciano já cansou de atribuir às minorias atitudes como ódio, rotulações ou intolerância.

Além disso, este malandro, assim como todos os membros da sua quadrilha igreja, não se cansam de dar um ar de verdade uma estória meio sem pé nem cabeça que há milênios um continente inteiro sofre com perrengues com base numa maldição de um personagem bíblico.

Eleger um doente assim é achar que a população brasileira só tem idiota… Pensando bem, de repente até têm razão se você se lembrar de quem tá na Presidência do Senado…

Enfim, como de praxe, o evangélico Feliciano traz em seu discurso os melhores argumentos de merda e opiniões dignas de penam, perfeitamente alinhados com o Dr. em caceta nenhuma Silas Malafaia que, por sinal, só defeca pela boca. Vejam só, o Feliciano é contra o projeto de lei 122 que trata sobre criminalização da homofobia. Sério, o bicho é o Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias e é contra um projeto de lei que protege justamente uma minoria.

Mais engraçado ainda é ver uma pessoa achar que duas pessoas do mesmo séquissu se pegando é um pecado level Rússia, mas não vê problema em pedir o cartão de crédito AND senha dos fiéis da sua igreja. Aliás, dar o cartão, mas não dar a senha resulta na negação do próprio Criador sobre um pedidozinho de milagre. Irado né?

Só toquei no nome do Malafaia para ganhar mais uns cliques e para mostrar que ele também se opõe ao referido projeto de lei (vejam só aqui). O Texto é bastante merda e recheado dos mesmos argumentos defecados naquela trollada entrevista com Gabi. Saca o nível de compreensão desta mula:

O perigo do artigo 1º é a livre orientação sexual. Esta é a primeira porta para a pedofilia.

Fun Fact nº 2: De acordo com o Wikipedia, orientação sexual pode ser assexual (nenhuma atração sexual), bissexual (atração pelos gêneros masculino e feminino), heterossexual (atração pelo gênero oposto), homossexual (atração pelo mesmo gênero) ou pansexual (atração independente do gênero). Já podemos acrescentar mais uma modalidade, por que de acordo com o Sr. Feliciano pedofilia é orientação sexual.

Queria ter a capacidade para entender a genialidade deste aloprado para entender essas baboseiras que fala. De repente é tudo pensado para fazer uma lekzueragem e a gente tem levado tudo a sério.

Ω

Wikipedia Redefined

A agência creativa New! mostra uma nova identidade visual e, diria, uma experiência mais refinada do Wikipedia. Ou, como eles chamam o projeto, Wikipedia Redefined:

Wikipedia is one of our favorite sources of accumulated knowledge, hats off to Jimmy Wales.

But from the user’s and designer’s point of view it still has room to improve.

That’s why we decided to spend two spring months on this project, looking for the ways how to make it better, reader or editor friendlier, clearer and aesthetically satisfying.

Incrível.

Vem que eu explico

Falar e ser ouvido é um duelo. Na maioria das vezes queremos falar, mas ouvir nem sempre.

Percebi que tenho muito a falar e, dado dificuldade de fazer as pessoas parar mais do que um instante para ouvir, resolvi começar a falar sozinho.

Vou falar de tudo ou qualquer coisa. Se quiser, vem comigo que no caminho eu explico.