R.I.P. Richard Matheson

No último dia 23 de Junho, faleceu Richard Matheson, autor conhecido pelos contos de terror, ficção científica com uma pegada apocalíptica, tendo como obra mais conhecida Eu Sou a Lenda, de 1954, que conta a história de um homem que foi o único sobrevivente não-infectado por uma bactéria mortífera.

Com histórias de terror, Matheson praticamente deu início à uma geração de escritores de ficção científica, terror e gêneros afeitos a narrativas “apocalípticas” e de “zumbis”. Ray Bradbury (autor do distópico Fahrenheit 451) considerava-o um dos mais importantes escritores do século 20, e Stephen King (autor da série Dark Tower) dizia que Matheson foi a maior influência de sua carreira.

Vários de seus contos e romances foram transformados em filmes, especialmente o Encurralado (Duel, 1971) dirigido pelo ainda jovem e inciante Steven Spielberg, e Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007) de Francis Lawrence. Ainda, a telessérie The Twilight Zone foi recheada de roteiros de Matheson. Aliás, dos episódios de Além da Imaginação, teve a recente adaptação aos cinemas com Gigantes de Aço (Real Steel, 2012) de Shawn Levy estrelando Hugh Jackman.

Se tiverem curiosidade para conhecer a obra de Matheson, sugiro ler ou assistir I Am Legend, Duel ou Real Steel.

Ω

Exterminador do Futuro e o Principio da Autoconsistência de Novikov

Hoje resolvi falar sobre o Principio da Autoconsistência de Novikov. Como? Má que porra é essa Doutor? Simples, vejam como são as coisas.

Tudo começou quando resolvi querer comprar o Nike Air Mag, que foi lançado em 2011 para angariar fundos para a Michael J. Fox Foundation que luta contra o Mal de Parkinson, doença que aflige o genial Michael J. Fox. E ai? O que isso tem a ver com o tal principio?

Calma neguinho. Estou chegando lá.

Bom, procurando pelo tal tênis vi que o preço é astronômico (por volta de $5 mil obamas), o que desanimou. Para não considerar que perdi meu tempo procurando por um tênis que não rola de comprar, acabei lendo mais sobre o De Volta Para o Futuro 2, filme que originou o tênis. Obviamente, a grande sacada do filme é a maneira genial de como o conceito da viagem no tempo foi usado. Resolvi ler mais sobre o assunto e me peguei lendo sobre outro filme que trabalha o conceito de viagem no tempo de forma magistral: Exterminador do Futuro de 1984, um dos clássicos sci-fi.

E a porra do principio Daniel? Calma, agora vai.

Resolvi assistir o filme novamente e prestar mais atenção no desenrolar dos eventos passados no filme e percebi que a estrutura do roteiro parece respeitar as regras do referido princípio de autoconsistência. Vejam que, num futuro distante, as máquinas é que dão as cartas e o dealer é a inteligência artificial chamada Skynet, que a todo custo tenta exterminar a humanidade, mas se vê impossibilitada pois esbarra na resistência humana liderada por John Connor.

Numa derradeira tentativa de dizimar os humanos, a Skynet resolve enviar um assassino cibernético chamado de Exterminador de volta no tempo a fim de matar a Sarah, antes que ela seja a mãe de John Connor, o que evitaria a existência do próprio John e a sua resistência no futuro. Connor, por sua vez, envia Kyle Reese, um de seus soldados, de volta no mesmo tempo para proteger Sarah e garantir que ele seja concebido.

A grande sacada aqui é que, ao assistir estes eventos, naturalmente achamos que com o envio do Exterminador e de Kyle Reese a história será alterada. O que acontece, na realidade, é que estes viajantes no tempo acabam criando a mesma realidade que tanto querem alterar. Confuso? Vou explicar melhor.

Quando Sarah e Kyle estão fugindo do Exterminador, em um dado momento rola aquele clima e, pimba, habemus sexum, Sarah engravida de um garoto que vem a ser John Connor. Ainda, no fim do filme quando o Exterminador é destruído na fábrica, partes do assassino cibernético são recuperados pela Cyberdyne Systems, dona da fábrica. Esta companhia usa o que sobrou do Exterminador e desenvolve a tecnologia que será a base da criação da Skynet.

Como podem ver, Kyle e o Exterminador foram enviados de volta no tempo para alterarem a história, mas o que eles fizeram foi justamente criar a história que serviu de motivo para o envio deles no primeiro momento. John Connor é concebido e a resistência humana está garantida no futuro e o Exterminador serve base para a tecnologia que culminará na criação de Skynet, a inteligência artificial que quer dizimar a humanidade e que mandará um Exterminador ao passado para matar aquela que dará vida ao líder da resistência. Loco isso né? A Skynet sempre tentará alterar o passado, mas ela mesmo acaba criando o futuro que quer evitar.

Esta lógica é a base do Princípio de Autoconsistência de Novikov que tenta resolver o problema dos paradoxos relativos a viagens no tempo, que teoricamente são permitidas em algumas soluções contendo o que se conhece como curva tipo-tempo fechada (teoria da relatividade geral). Em outras palavras, o princípio explica que a história é sempre consistente e não poderá ser mudada, mesmo que alguém resolva voltar no passado e alterar a história com um novo evento. Caso exista tal evento que possa dar origem a um paradoxo (causar qualquer “mudança” no passado), então a probabilidade desse evento ocorrer é zero.

Aliás, modificar o passado e criar o futuro que conhecemos é conhecido como paradoxo de predestinação: um homem volta no passado para investigar um grande incêndio e sem querer acaba derramando querosene e iniciando o tal incêndio que o inspirou a voltar no tempo para investigar. Falar de paradoxos é papo de outro post.

No fim, o engraçado disso tudo é que a aplicação deste princípio no filme é baseado na premissa que, de fato, os viajantes no tempo acreditam que podem alterar o passado e, assim, modificar o futuro. Uma premissa totalmente contrária ao princípio discutido e base para os eventos do filme.

Ω

21st Century Fox

Ontem, a News Corp anunciou a separação da divisão de entretenimento da companhia (incluindo os estúdios) e divulgou o nome da nova empresa que está sendo formada: 21st Century Fox. O novo nome demonstra, claramente, que o objetivo da nova companhia é o futuro.

Mudança simples né? Toda hora lemos sobre fusões e aquisições de grandes empresas e essa é mais uma fácil de entender, certo? Errado, a imprensa (despreparada) consegue complicar um simples anúncio, principalmente, dizendo que a Twentieth Century Fox havia mudado de nome.

Não é isso que tá rolando galera! Os dois estúdios Twentieth Century Fox, como está no comunicado para a imprensa, não vão mudar de nome simplesmente por conta da tradição da marca. A única diferença é que estes estúdios passam a fazer parte do 21st Century Fox, certamente uma holding do grupo News Corp. Simples assim. Na realidade, não muda nada e a Twentieth Century Fox contiuará a fazer cagada nos filmes do X-men.

Apenas por curiosidade, há 30 anos Rupert Murdoch, através da News Corp, comprou a Twentieth Century Fox, na época um dos maiores estúdios de TV e cinema do mundo. Por sua vez, a Twentieth Century Fox nasceu de uma fusão das então concorrentes Twentieth Century e Fox, resultando no nome tradicional do estúdio. Aquela historia que a expressão “século vinte” tinha apenas para homenagear o século passado não procede e, por isso que faz sentido a News Corp manter a tradicional marca.

Por ser uma marca, não faz o menor sentido mudá-la, ainda mais que a marca tenha um nome que refletia uma data ou evento ou qualquer outra característica que fazia sentido na época.

Vejam a Kodak, que dizem que o fundador George Eastman se inspirou no barulho que se fazia ao “andar” o filme e “clicar” para bater uma foto nas câmeras fotográficas do século retrasado. Hoje não temos mais este barulho (ou procedimento) para tirar uma foto e nem por isso a Kodak mudou de nome. Aliás, a história da Kodak merece um post exclusivo, ainda mais após o pedido de falência no ano passado.

Ω

Roger Ebert morre aos 70

Acabei de me deparar com a triste notícia do falecimento de Roger Eber, excepcional e lendário crítico de cinema.

É claro que é sempre um choque quando se é fã da pessoa que falece (não foi diferente com as mortes de Michael Jackson e Steve Jobs), mas depois dele ter anunciado um “leave of presence” nesta última terça em razão de uma recorrência do câncer, era de se esperar que a saúde ele não estava forte.

Triste para os amantes do cinema.

R.I.P.

Ω

The Dark Knight e a Teoria dos Jogos

Se ainda não assistiu este clássico instantâneo das adaptações de quadrinhos para o cinema, saiba que a a crítica abaixo está recheado de spoilers, abordando todas as tramas, subtramas, reviravoltas etc. Se ainda for ver este filme, sugiro parar por aqui. Vá ver o filme e depois volte para ler a resenha.

Como já falado em outros dois posts, Batman Begins mostra o aumento explosivo da criminalidade em resposta às políticas socioeconômicas para aumento de empregos e diminuição da pobreza característicos da década de 1960, enquanto em The Dark Knight Rises mostra as políticas da década de 1980 de repressão ao crime e uma economia neoliberal levar a classe média à uma revolta contra o establishment e a população rica.

Batman Begins e The Dark Knight Rises são filmes reflexos um do outro, onde o primeiro mostra o fracasso das políticas liberais, e o outro sobre o fracasso das políticas conservadoras. Em meio a isso tudo, temos The Dark Knight que, ao meu ver, é o último filme desta triologia niilista¹ (ainda que seja o segundo filme do ponto de vista cronológico), que busca documentar a falta de esperança de uma sociedade além do que os lados liberais ou conservadores podem oferecer como solução.

Vamos lá, o filme começa mostrando a dificuldade que a sociedade tem para lidar com o Batman, onde a população se divide em aqueles que acham errado idolatrar o vigilante mascarado que transcende a lei para fazer justiça com as próprias mãos e aqueles que aprovam os resultados desta cruzada (incluindo o novo promotor, Harvey Dent). Esta nova forma de justiça do Cavaleiro das Trevas inspira (literalmente) uma onda de imitadores de segunda categoria.

Igualmente inspirado, Dent tenta fazer a sua parte processando os criminosos, usando o que o sistema judiciário tem de melhor e chega a prender todos os banqueiros dos mafiosos (exceto o chinês Lau que foge de volta para a China). A caçada continua atrás dos próprios mafiosos, começando com Maroni, novo chefe da máfia (que assumiu o lugar de Falcone, preso em Batman Begins). Politicamente, Dent consegue chamar atenção, mas os resultados não parecem promissores, uma vez que novos bandidos surgem para assumir o lugar daqueles presos por Dent.

Dent, então, decide que a única maneira de causar algum estrago nos planos da máfia é prendendo todos os bandidos de uma vez e criar um vácuo nas ruas sem os criminosos, ainda que com base em acusações que consiga manter apenas os bandidos mais fuleiros presos (os mais poderosos, com bons advogados, conseguirão liminares e habeas corpus para responderem em liberdade). Esta passagem server para mostrar que Dent não se importa em quebrar regras, desde que resolva o problema (Consequencialismo), novamente se mostrando inspirado no Batman.

Ao conhecer Bruce Wayne pela primeira vez, Dent fala sobre a necessidade de modificar (ou quebrar) as regras para o bem da sociedade citando os Romanos que, durante a República, suspenderam a democracia para proteger Roma (embora a Rachel completa dizendo que os Romanos, eventualmente  perderam a democracia com o nascimento do Império). Dent vai além e diz que este é um problema inato dos heróis (e do Batman), o que ele espera consertar quando assumir o manto do Batman, ainda que por dentro do sistema como um promotor de justiça:

You either die a hero or you live long enough to see yourself become the villain.

O problema dessa empreitada toda é que ele está pondo todo o sistema na alça de mira. O prefeito de Gotham alerta que a carreira dos dois vai para o brejo se esta tática não der certo, prevendo que o problema ficará fora de controle quando todos aqueles que tem o que ganhar com a corrupção começarem a sentir os bolsos mais leves:

The mob, politicians, journalists, cops — anyone whose wallet’s about to get lighter.

Da mesma forma que Dent se mostra frustrado com o sistema judicial, o Coringa se sente frustrado com os criminosos atuais e propõe que eles precisam ir além do que tem feito:

The Chechen: What do you propose?

The Joker: It’s simple. We, uh, kill the Batman.

Depois do choque causado com uma proposta aparentemente absurda, o Coringa se oferece para resolver o problema Batman por uma quantidade proibitiva de dinheiro, que os mafiosos acabam, eventualmente, aceitando. Essa proposta mostra como o Coringa é obssecado com a ideia do homo economicus², o que pode ser percebido quando os mafiosos perguntam a razão de tanto dinheiro (ou do simples fato de cobrar dinheiro) para matar o Batman e ele responde:

Like my mother used to tell me: if you’re good at something, never do it for free.

Vale lembrar que o filme começa com o Coringa tendo contratado 5 bandidos para roubar um dos bancos dos mafiosos da seguinte maneira: Dopey desliga o alarme, Happy mata o Dopey e abre o cofre, Grumpy mata o Happys e põe todo o dinheiro nas bolsas, Grumpy é atropelado pelo ônibus usado na fuga. Bozo, finalmente, mata o motorista e tira a máscara revelando ser o Coringa. Esta primeira dinâmica é o famoso pirate game e, assim como na teoria, permite que o Coringa fique com todo o dinheiro após um elaborado plano de eliminação. Batman, ainda usando a tática de impor medo, tenta rastrear o Coringa ameaçando Maroni, o que pouco serve pois o mafioso explica que o Coringa não é preso à nenhuma regra e, por isso, é totalmente imprevisível, o que impede que qualquer um abra o bico para dedurar o palhaço:

No one’s gonna tell you anything — they’re wise to your act — you got rules. The Joker, he’s got no rules. No one’s gonna cross him for you.

Esta loucura do Coringa é planejada e conhecido como o teorema de Davies-Folk: a coisa racional a se fazer é parecer ser irracional para que o seus oponentes não contem com a hipótese de que você faça algo racional. Alfred rapidamente percebe a relação do Coringa com um bandido da época em que ele trabalhava para o governo de Burma (ou Myanmar) e conta seguinte história:

I was in Burma. A long time ago. My friends and I were working for the local government. They were trying to buy the loyalty of tribal leaders, bribing them with precious stones. But their caravans were being raided in a forest north of Rangoon by a bandit. We were asked to take care of the problem, so we started looking for the stones. But after six months, we couldn’t find anyone who had traded with him. (…) One day I found a child playing with a ruby as big as a tangerine. (…) The bandit had been throwing the stones away. (…) Some men just want to watch the world burn.

Vejam o paralelo nesta história e o modus operandi do Coringa. O bandido se mostrou mais doido que o próprio plano do governo de Burma (já baseado numa premissa maluca e, totalmente, corrupta: subornar pessoas) e fez algo tido como irracional (jogar as pedras preciosas fora), mas totalmente racional (evitou o suborno), impedindo que a lealdade da população fosse comprada. Da mesma forma, quando o Coringa finalmente põe as mãos no dinheiro, ele simplesmente põe fogo na fortuna (ato irracional que põe todos os mafiosos no “bolso” dele, por se tratar de  um homem irracional, inconsequente e louco – quem é que vai enfrentar um sociopata destes?).

Enquanto isso, Dent começa a desviar da sua retidão como promotor quando ele sequestra um dos comparsas do Coringa e tenta arrancar informações através de ameaça. Num último instante, Batman intervém e impede que Dent destrua a sua própria credibilidade como promotor mostrando que este estilo de interrogação é algo que somente o Batman pode fazer (por já estar à margem da sociedade).

Já no clímax do filme, Batman confronta o Coringa no meio das ruas de Gotham numa verdadeira disputa de faroeste, conhecido como o  jogo da galinha (ou chicken): o Coringa sabe que o Batman respeita uma só regra (não mata nenhum bandido) e encoraja-o a quebrá-lo e matá-lo, mas quando o Batman está prestes a atropelar o Coringa com o batpod, ele se desvia no último instante e acaba caindo e sendo pisoteado pelo Coringa, em clara comemoração sabendo que “quebrou” o Batman.

Na sequência, Jim Gordon aparece de surpresa e rende o Coringa que é levado à carceragem da polícia de Gotham. Num “pré” interrogatório feito pelo Batman, essa única regra é abusada quando o Coringa mostra que, apesar de trabalhar à margem da sociedade, na verdade o Batman é mais um elemento controlado por esta sociedade:

To them you’re a freak like me. They just need you right now. … But as soon as they don’t, they’ll cast you out like a leper. (…) Their morals, their code… it’s a bad joke. Dropped at the first sign of trouble. They’re only as good as the world allows them to be. You’ll see — I’ll show you… You have these rules. And you think they’ll save you. (…) [But ] the only sensible way to live in this world is without rules.

Ainda nesta sequência, o Coringa caçoa de Gordon dizendo que ele não tem qualquer controle sobre a equipe dele (Polícia) e, na verdade, todos “trabalham” para Maroni, provocação esta conhecido como o clássico problema do principal-agente (diz respeito às dificuldades em motivar uma parte (o “agente”) para agir no melhor interesse de outro (o “principal”), em vez do que em seus próprios interesses):

Does it depress you, Lieutenant, to know how alone you are?

Ainda preso, Batman arranca do Coringa que tanto Dent como Rachel foram sequestrados e estão em localidades diferentes prontos para serem explodidos, mas que o Batman só tem como salvar um dos dois (exemplo de custo de oportunidade). Batman escolhe salvar seu amor de infância e sai em disparada para o endereço correspondente indicado pelo Coringa, apenas para descobrir que o próprio Coringa trocou os endereços (essa disputa e o desfecho dela se parece com o jogo Battle of Wits do filme The Princess Bride). Rachel morre e Dent é salvo, mas com metade do rosto queimado por conta da gasolina utilizada como explosivo, assim se transformando noutro vilão clássico – Duas Faces (clássico bipolar, mas exageradamente caricato).

Outra situação interessante no filme é quando Reese, empregado da Wayne Enterprises resolve ir à público (e num talk show) para revelar a identidade do Batman, mas o Coringa resolve intervir ligando para a emissora numa tentativa de impedir a revelação. O palhaço propõe que explodirá um hospital cheio de paciente se não matarem o Reese (situação esta conhecida como o trolley problem: uma pessoa precisa decidir se é melhor deixar 100 morrem ou matar 1). Já no hospital, o Coringa se explica para o Dent:

Do I really look like a guy with a plan, Harvey? I don’t have a plan… The mob has plans, the cops have plans. … Maroni has plans. Gordon has plans. Schemers trying to control their worlds. I’m not a schemer, I show the schemers how pathetic their attempts to control things really are. It’s the schemers who put you where you are. You were a schemer. You had plans. Look where it got you. … Nobody panics when the expected people get killed. Nobody panics when things go according to plan, even if the plan is horrifying. If I tell the press that tomorrow a gangbanger will get shot, or a truckload of soldiers will be blown up, nobody panics. Because it’s all part of the plan. But when I say that one little old mayor will die, everybody loses their minds! Introduce a little anarchy, you upset the established order and everything becomes chaos. I’m an agent of chaos. And you know the thing about chaos, Harvey? … It’s fair.

Como esse monólogo Dent finalmente pira, cruza o limite dos seus princípios e começa uma caçada contra todos aqueles que ele culpa por serem responsáveis pela morte de Rachel: primeiro ele pega Weurtz no Bar que o tinha sequestrado, Weurtz entrega o Maroni que, por sua vez, entrega Ramirez, o que leva Dent a chegar na família de Gordon e, naturalmente, ao próprio Gordon.

Batman, por sua vez, também vai esticando o limite dos seus princípios e, numa última tentativa de rastrear o Coringa, transforma todo celular (antena) em Gotham numa espécie de sonar ou um aparato de espionagem, essencialmente.

O Coringa, numa última cartada, consegue deixar a cidade desestabilizada o suficiente para que uma boa parte da população tente escapar Gotham pelo catamarã, assim como a população carceraria de Arkham num outro catamarã. Quando as duas embarcações estão em águas profundas e longe da costa, o Coringa desliga as embarcações e apresenta cada um dos dois lados um controle remoto para detonar explosivos na outra embarcação, construindo o dilema do prisioneiro. Os passageiros cidadãos normais discutem o assunto e votam, enquanto noutra embarcação, um dos prisioneiros joga o controle pela janela, numa combinação de pacto de Ulisses (é uma decisão feita livremente com o objetivo de se atrelar ao resultado no futuro) e uma escolha dinamicamente inconsistente (o melhor plano de um jogador parece ser o ideal no presente mas se mostra que não é o ideal no futuro).

Num último jogo que me vem a mente (mentira, revi o filme algumas vezes para lembrar das cenas), Gordon prepara um hostage rescue team, mas Batman descobre que os bandidos são os “reféns” e os reféns os “bandidos”, numa excelente ilustração de “The Market for Lemons”, que explica a aparente facilidade imposta pelo Coringa para matar seus comparsas (porque você acreditaria que aqueles “bandidos” são os reais bandidos?). O resultado disso tudo é a intervenção eficaz do Batman salvando os reféns “bandidos”, impedindo o  SWAT de matar os reféns e captura dos bandidos “reféns”.

O desfecho do filme mostra Batman indo atrás de Gordon e tentando impedir que Dent mate a família do Comissário. Dent discursa e explica a sua nova filosofia:

You thought we could be decent men in an indecent time. You thought we could lead by example. You thought the rules could be bent but not break…² you were wrong. The world is cruel. And the only morality in a cruel world is chance. Unbiased. Unprejudiced. Fair.

The Dark Knight mostra o tempo todo as inúmeras tentativas dos personagens querendo alterar o curso do sistema: Batman, originalmente, acreditava que conseguiria inspirar a população de Gotham a lutar contra a corrupção, mas acaba pondo em risco os jovens que o imitam. Dent acreditava que podia limpar as ruas seguindo as regras do sistema judiciário, mas acaba jogando todos os seus princípios pela janela ao ser consumido pela sua obsessão pela igualdade e justiça e vira um monstro bipolar. Mas o melhor plano de todos era o do Coringa: ele é mais corrupto do que os corruptos poderiam imaginar e, assim, toma o lugar dos mafiosos oferecendo a Gotham uma classe melhor de criminosos (“a better class of criminal”).

No final, o plano do Coringa dá certo, ele continua vivo depois de toda o caos que causou, os mafiosos estão presos ou mortos, sem poder e sem dinheiro (que acabou sendo “distribuido” pelo fogo). Aliás, esse cenário é o perfeito pano de fundo para a aparente paz vista no começo de The Dark Knight Rises, onde os ricos (e políticos) não se sentem pressionados (nem corrompidos) pelos mafiosos, o que os deixa com o poder suficiente para adotar políticas duras contra o crime para que não surja outro “Coringa”.

O filme conclui que para Batman funcionar (ou, melhor, Dent ser entronizado como o “Cavaleiro Branco”) é necessário que o Cavaleiro das Trevas se torne o vilão. A grande sacada do filme é que o herói é o Coringa (ainda que não apresente os traços característicos de um herói). Veja que ele apenas mata uma pessoa (com o truque do desaparecimento do lápis no começo do filme) e, através do seus caos inspirado ele destrói os criminosos da cidade (aterrorizando a população neste meio tempo, é claro). Batman consegue, temporariamente, prender o Coringa, resolver o problema de corrupcão e criminalidade que infesta a cidade, mas fica claro na cara do “zé das couves” que este tipo de passagem não é aceitável.

Finalmente no The Dark Knight Rises, Batman se vê sem solução para evitar que os criminosos fiquem cada vez piores (como se tentassem equilibrar as forças com um vigilante feito o Batman), o que o leva a fingir a sua morte e sair de cena voltando a ser aquele playboy de antes de Batman Begins.

Ω


  1. Conceito que mostra como os valores tradicionais se depreciam, onde tudo na sociedade é desestabilizado, sacudido, posto radicalmente em discussão.
  2. Homo Economicus é um conceito de muitas teorias econômicas onde o ser humano é tido como um ator racional e, por vezes, egoísta, e que tem a capacidade de fazer escolhas ou julgamentos que atendam os seus fins subjetivamente definidos. Este conceito é em contraste com o Homo Reciprocans que afirma que os seres humanos são motivadas, principalmente, pelo desejo de ser cooperativo e querer melhorar seu ambiente.
  3. Esta transcrição é a versão do roteiro, mas acabou sendo levemente editada na montagem final do filme.

Batman Begins

Naturalmente, a crítica está recheada de spoilers, tanto sobre Batman Begins como sobre The Dark Knight Rises¹.

A década de 1980 é marcada por uma força global do mal (illuminati?) que, através das corporações e governos, conseguiram instituir políticas socioeconômicas que causaram efeitos nefastos e agravaram a desigualdade, fazendo com que os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres, com níveis descomunais de desemprego.

A diferença é que no universo do Batman, o principal bilionário de Gotham (Thomas Wayne) não consegue ver e suportar este sofrimento e começa a investir maciçamente na cidade, já que o governo não faz nada. O símbolo deste investimento é a construção de um super trem que liga a cidade inteira em uma tentativa desesperada de aumentar os postos de trabalho para a cidade voltar a prosperar, num claro exemplo da política econômica keynesiana. Mas, numa reviravolta digna de ficção (de comic books em especial), Thomas Wayne e a sua esposa, Martha Wayne, acabam assassinados por um desesperado e miserável ​​cidadão que ele tanto tenta ajudar. Ironia do destino?

O assassinato dos bilionários deixa a população de Gotham estarrecida, o que leva a cidade a mudar sua política socioeconômica e adotar o neoliberalismo. Ou seja, ao invés do Estado intervir na sociedade com a estatização de empregos e, consequentemente, combater o crime que assola as ruas, o Estado prefere deixar a iniciativa privada prosperar e regular o mercado, o que acaba permitindo que a corrupção aflore e que criminosos dominem todos os setores da sociedade. Mas o neoliberalismo sem a vigília do Estado traz as suas consequências e, já a esta altura do filme, vemos que os governantes preferem tratar o crime como problema de saúde mental, e não como reflexo do próprio abandono do Estado.

Com a saída de cena dos bilionários, o crime organizando vai preenchendo as lacunas e tomando o seu lugar, seja comprando juízes, líderes sindicais e até policiais. Antes a cidade era liderada pelos investimentos da Wayne Enterprises, mas com a morte de Thomas Wayne, Gotham é abandonada e ‘administrada’ pelo mafioso Carmine Falcone. Não há política, seja keynesiana ou neoliberal, que ajude a cidade, quando se tem a corrupção infiltrada em todos os estratos da sociedade.

Alguns ainda permanecem honestos e incorruptíveis, como o tenente Gordon (polícia) e a assistente da promotoria Rachel Dawes que se recusam a serem comprados. Vemos a promotoria fazer um acordo para libertar o assassino dos Wayne’s em troca de um testemunho contra Falcone. Bruce Wayne, o filho único dos bilionários, não consegue entender esta prática habitual do sistema judiciário e, atormentado por seus demônios pessoais, parte para resolver a questão de maneira vingativa. Rachel Dawes não aceita tamanho egoísmo e diz que Bruce precisa enfrentar o problema de frente feito um homem e não um covarde, o que o leva a confrontar Falcone. Este momento é o divisor de águas para Bruce, após ouvir Falcone explicar que ele sempre viverá com medo daquilo que não entende. Bruce foge de Gotham e sai em busca para compreender os criminosos.

Essa busca leva Bruce até o extremo oriente onde conhece a Liga das Sombras e o mentor Ra’s al Ghul, que existe justamente por conta desta força global do mal e que foi a mesma que inventou o neoliberalismo. A tal liga tem um novo plano para ‘consertar’ Gotham e dessa vez não será pela ajuda filantrópica dos Waynes, nem mesmo as políticas neoliberais da livre iniciativa (e livre corrupção): o plano agora é atacar Gotham na esperança de infligir medo suficiente para que a cidade sucumba e recomece do zero².

No treinamento, Bruce, ainda assombrado pela execução sem sentido dos pais, se recusa a vestir o capuz de um executor e, ao invés, resolve tocar o terror internamente na Liga das Sombras. Passado a experiência, Bruce volta para Gotham e resolve mudar o status quo do medo. Ao invés da população sofrer com o medo imposto, Bruce resolve usar o medo a favor dele e da população criando a figura do Batman. Ele ajuda a Rachel Dawes a incriminar Falconce, recupera a sua empresa das mãos dos executivos corruptos e volta a ser o bilionário, igual ao seu pai.

O desfecho do filme e resultado de ações tomadas por Bruce, mas na ordem inversa daquelas vistas em The Dark Knight Rises. O ataque do Batman em Falcone inicia uma nova era de repressão ao crime, tira o crime organizado e violento das ruas, e devolve às corporações as chaves de Gotham (poder e riqueza).

Passado os eventos de The Dark Knight Rises, com o desaparecimento do Batman, o neoliberalismo volta a cena e reequilibra o mercado. Wayne Enterprises que, ao final de Batman Begins, passa a ser de capital fechado, volta ao mercado de ações e vira uma empresa de capital aberta e negociada livremente. A tal força do mal volta com Bane numa nova (continuada) tentativa de consertar Gotham libertando todos os presos de Blackgate Prison, ou seja, devolvendo à cidade o crime organizado³.

A construção das histórias não são ao acaso e a saga criada por Christopher Nolan termina com a suposta morte do Batman/Bruce Wayne o que permite a levar a vida que levava antes de virar um vigilante, nos levando ao começo de Batman Begins⁴. Se for ver, Batman não conseguiu fazer nada que tinha em mente que era consertar a cidade e livrá-la do mal.

Ω


  1. Batman Begins e The Dark Knight Rises são filmes antagônicos e uma série de cenas de ambos os filmes são idênticas. Como um filme completa o outro, entender o primeiro filme da saga ajudará a entender o desfecho do terceiro filme.
  2. Isto é uma alusão à queda do World Trade Center, onde a cidade de Nova Iorque teve que se reerguer (físico e emocionalmente) do zero. Além disso, esta alusão é um toque sutil para aqueles que acreditam que foi um trabalho encomendado (sim, a queda das torres foi demolição controlada – e merece um post exclusivo).
  3. Interesssante ver como a sociedade é controlada por uma força invisível. Quando políticos, empresários bilionários, mafiosos, sistema judiciário – qualquer um que tenha o poder em mãos – abusam de tal condição, esta força invisível do mal aparece e impede que o sistema mude. Corrupção e desigualdade social é sempre presente, independentemente de quem esteja no poder ou de qual política socioeconômica está em vigor.
  4. Os filmes são os mesmos, só que contados de forma inversa. Até construção do Robin em The Dark Knight Rises segue a mesma premissa do Batman – órfão frustrado com a violência e o descaso do Estado, resolve combater o crime – John ‘Robin’ Blake é órfão e quando se vê frustrado com a situação de Gotham resolve seguir os passos de Batman. Assim o ciclo jamais termina.

O que aconteceu em Dark Knight Rises

No último dia 3 de março, o Latino Review reportou que, numa clara resposta à Marvel e o sucesso dos Avengers, Christopher Nolan tinha sido contratado pela Warner Bros para tomar as rédeas do universo DC e coordenar todas as adaptações dos filmes da DC para a telona.

Ainda na notícia bombástica, El Mayimbe disse que Christian Bale voltaria como Batman num possível filme da Liga da Justiça ou num filme com Superman (World’s Finest).

A primeira parte desta história pode até acontecer, mas não veremos Christian Bale como Batman, pelo menos não o Batman construído por Christopher Nolan. Quer saber por quê? Tudo foi explicado no último filme do Cavaleiro das Trevas.

Mesmo com atraso, abaixo segue a minha interpretação dos acontecimentos do filme. Não há como destrinchar a história sem contar elementos e tramas do filme. Portanto, se ainda não assistiu o filme pare de ler aqui se não quiser que as surpresas do filme sejam estragadas.

A minha crítica tem mais a ver com as metáforas e discussões políticas do filme do que a continuidade (ou os erros).

Avisados? Vamos lá.

The Dark Knight Rises

O filme começa com um grande questionamento: o que acontece com políticas conservadoras que reinforça a lei e ordem através da força? A resposta é que tal política (sistema penal severo) destrói as próprias pessoas que a aplicam. Veja que sem ter com o que combater, Bruce Wayne vira um recluso destruído pelo conformismo, enquanto o Comissário Gordon também será destruído (com a eventual demissão que o ronda). Não há mais crime a ser combatido (pelo menos aqueles violentos e de rua – tráfico, crimes violentos, prostituição, roubo etc.) e com isso nós ficamos incomodado com a aparente destino dos dois personagens que mais simpatizamos na trilogia. Com 10 minutos de filme o dilema do primeiro ato já está estabelecido: aqueles que erradicaram o crime não gostariam de ter o feito.

Assim, numa cidade (ou mundo) onde não há crime violento, a polícia parece não saber como redirecionar a sua atuação e combater crimes de colarinho branco, financeiros como o Daggett. Engraçado até é o uso do Comissário (no topo da hierarquia da polícia) para procurar um deputado desparecido. Mais engraçado ainda é que ninguém se incomoda com a aparente assédio sexual da Selina Kyle pelo mesmo deputado.

Como resultado desta política, onde não controle algum sobre os crimes financeiros, a população de Gotham vive numa cidade cada vez mais pacífica mas, em contrapartida, sofrendo uma crescente desigualdade econômica.

Essa dinâmica é um claro reflexo de espelho da situação encontrada no filme da trilogia, onde Gotham City vive ainda do boom econômico iniciado pelo Clã Wayne e ainda luta para limpar uma cidade com crimes e criminosos em todos estratos da sociedade. O que acontece em Dark Knight Rises é justamente o contrário, a falta de crime é justamente o que leva à uma economia que falha em ajudar a cidade a prosperar. Ra’s al Ghul falou isso no primeiro filme:

Over the ages, our weapons have grown more sophisticated. With Gotham, we tried a new one: Economics. But we underestimated certain of Gotham’s citizens… such as your parents. Gunned down by one of the very people they were trying to help. Create enough hunger and everyone becomes a criminal. Their deaths galvanized the city into saving itself… and Gotham has limped on ever since. We are back to finish the job. And this time no misguided idealists will get in the way. Like your father, you lack the courage to do all that is necessary. If someone stands in the way of true justice… you simply walk up behind them and stab them in the heart.

Gordon ainda tenta manter a lenda do Batman como um fiapo de esperança para que a criminalidade não retorne ligando o bat-sinal de tempos em tempos, mas a única ajuda para a cidade são os eventos beneficentes (que vemos na mansão Wayne no começo do longa), numa tentativa de preencher a distância entre os muitos ricos e os extremamente pobres.

É neste cenário claramente influenciado pelo Theory of Justice (1) de John Rawls que surge Bane, um terrorista que escapou da prisão Pit (alusão ou Lazarus Pit) do oriente médio e foi ser treinado por um terrorista árabe Ra’s al Ghul, o mesmo que treinou Bruce Wayne. Logo vemos que Bane se preparar nos esgostos de Gotham e o seu quartel-general logo abaixo do arsenal (e extensão da Bat-caverna) do Batman na Wayne Enterprises. Claramente a ideia passada é o surgimento de uma nova sociedade para substituir a atual sociedade decadante.

O primeiro ataque de Bane começa usando seus soldados se perfazendo de trabalhadores em empregos clássicos da população proletária (mensageiro, engraxate…) para atacar a bolsa de valores de Gotham (praticamente idêntica a NYSE). Novamente o choque de sociedades é evidente, a população pobre tomando de assalto a riqueza da pequena parcela enriquecida. Assim, tomam o controle de toda a fortuna de Bruce Wayne, o homem mais rico da cidade que, por sua vez, se sente compelido a sair das sombras e enfrentar um inimigo à altura, coisa que não acontecia desde a aparição do Coringa 8 anos atrás.

Com a era do Comissário Gordon chegando ao fim, a atual polícia se perde em se preocupar em capturar o Batman do que os “assaltantes” num claro sinal de falta de propósito e despreparo do Estado em se adaptar ao novo mundo. Assim como o sucesso do Batman em acabar com o crime o fez desnecessário, a sua ausência fez o crime reaparecer e tornou o Batman novamente relevante. Batman precisa de uma cidade violenta e, no fim, ele não tem interesse em limpar a cidade dos criminosos.

Bane se alia a Daggett, membro da classe capitalista sem escrúpulos, ajudando-o a tomar o controle da Wayne Enterprises, para em seguida (e com um pouco de violência) por as mãos numa aparato nuclear idealizado para produzir energia limpa, mas que serve como uma arma nuclear (novamente culpa do Batman). Em seguida, Bane acaba com o estado repressor e liberta todos os presos de Blackgate Prison (2) e institui a lei-e-ordem (sistema penal severo que não dá oportunidade de ampla defesa ao acusado). Obviamente, o regime de Bane se torna uma anarquia chegando ao ponto do Scarecrow presidir julgamento de banqueiros com uma pegada dura e sem um sistema processual justo, assim como Harvey Dent fez em The Dark Knight.

Numa tentativa desesperada, a polícia tenta, em vão, enfatizar que todo poder, em última análise, vem da força do punho, e parte para um confronto em plena luz do dia com Bane e sua trupe vanguardista.  A situação piora quando a Talia, antes aliada de Bruce Wayne, revela que é filha de Ra’s al Ghul e que foi quem arquitetou a destruição de Gotham com o explosivo nuclear como era o desejo de seu pai.

Batman finalmente se dá conta que ele é o único culpado por criar esta nova classe de criminosos que ele tanto tenta acabar, exatamente como previsto pelo Coringa:

I don’t want to kill you! What would I do without you? …you complete me!

A última cartada do Batman é fingir a própria morte ao levar a bomba para explodir em alto mar. Ele, eventualmente, termina o filme na Itália onde lhe é permitido, novamente, a levar uma vida tranquila e bem abastada de playboy. Assim mesmo como era antes de se tornar o Batman. The Dark Knight Rises termina exatamente como começou Batman Begins.

O filme poderia ter tratado melhor a trama do John ‘Robin’ Blake que, durante o conflito entre o bem e mal nas ruas de Gotham, se deparar com o vice-comissário Foley que preferiu não fazer nada para proteger a população da cidade do que se arriscar numa batalha contra os opressores da cidade.

Enojado, Robin abandona a carreira de policial, joga fora o distintivo e parece assumir o manto do Batman e continuar com a teatralidade do medo e uso de táticas de vigilante no combate ao crime.

E esse último desfecho não é uma ponta deixada para eventual série de continuações ao encaminhar o John ‘Robin’ Blake para a bat-caverna. Entendo que esta última passagem é uma simbologia que a luta do Batman é interminável, onde a cidade precisa de um vigilante para diminuir o crime, assim como o Batman precisa do crime para que a sua vida tenha propósito.

The Dark Knight Rises realmente termina a saga de mais de 10 anos do Batman, e trazer Christian Bale de volta ao papel do Batman vai contra tudo o que filme trabalhou para estabelecer. Batman era um mal necessário, mas acabou se mostrando mais mal do que bom e a mera existência de um vigilante acima da lei demonstrou que  faria mais mal do que bem à sociedade. Como visto, o Batman depende da existência de criminosos cada vez mais malucos para justificar a sua existência e o uso desmedido de força e justiça para limpar a cidade. Sem o Batman pelo caminho, Gotham voltaria a ser corrupta e perigosa, mas facilmente administrável, o que não deixa de ser um bom negócio se comparadao ao auge da loucura e violência destemperada experimentada em Gotham durante os eventos de The Dark Knight.

Aliás, The Dark Knight merece uma análise com mais calma dado a grande quantidade de metáforas e o uso constante da teoria do jogos.

Ω


  1. Theory of Justice é a magunus opus sobre filosofia política e ética escrita por John Rawls onde tenta resolver o problema da distribuição equilibrada da justiça (a distribuição socialmente justa do que a sociedade tem de bom para oferecer) utilizando uma variação do conceito do contrato social. O resultado desta obra é conhecido no artigo conhecido como “Justice as Fairness“, onde Rawls obtém dois princípios: o princípio da liberdade e o princípio da diferença.
  2. Só a menção desta prisão explica a não aparição do Coringa que, aparentemente, estava preso sozinho no que sobrou do Arkham Asylum por ser um criminoso altamente violento e temido por todos, inclusive os outros criminosos.

Curiosidades da compra da Lucasfilm pela Disney

A Disney enlouqueceu a comunidade nerd em outubro de 2012 quando anunciou a compra da LucasFilm por cerca de $4B e agora, passado alguns meses, George Lucas foi entrevistado pela Bloomsberg Businessweek contando maiores detalhes de como o negócio se desenrolou.

O artigo vale a leitura, mas alguns itens me chamaram a atenção.

Os fãs mais xiitas sempre souberam que a saga de Star Wars compreendia uma história divida em 9 episódios, mas tendo apenas os 6 primeiros produzidos e o que parecia ser ideia da Disney de filmar os últimos 3 mostrou não ser bem o caso. George Lucas sempre quis produzir os últimos filmes da saga e, pelo visto, já tinha mexido alguns (bastantes) pauzinhos para viabilizar isso. A Disney só fez foi pisar fundo no acelerador depois que adquiriu a LucasFilm:

Lucas and Kennedy hired screenwriter Michael Arndt, who won an Oscar for Little Miss Sunshine, to begin work on the script for Episode VII. They enlisted Lawrence Kasdan, who wrote the screenplays for The Empire Strikes Back and Return of the Jedi, to act as a consultant. Lucas started talking to members of the original Star Wars cast, such as Mark Hamill, Carrie Fisher, and Harrison Ford, about appearing in the films. In June 2012, he called Iger.

Melhor de tudo foi George Lucas confirmar que, de fato, Mark Hamill, Carrie Fisher e Harrison Ford JÁ ESTÃO contratados. Saca só (e imagine como o pessoal da Disney deve ter ficado bem feliz):

Asked whether members of the original Star Wars cast will appear in Episode VII and if he called them before the deal closed to keep them informed, Lucas says, “We had already signed Mark and Carrie and Harrison—or we were pretty much in final stages of negotiation. So I called them to say, ‘Look, this is what’s going on.’ ” He pauses. “Maybe I’m not supposed to say that. I think they want to announce that with some big whoop-de-do, but we were negotiating with them.” Then he adds: “I won’t say whether the negotiations were successful or not.”

Esse Lucas é um grande brincalhão.

E um último detalhe que me fez sorrir foi saber que Steve Jobs, depois que virou o maior shareholder individual da Disney (após vender a Pixar por quase $8B), ligar para Bob Iger e dizer que o mais recente lançamento da Disney (na época) era uma merda. Mais atitude é impossível:

The transaction gave Disney a new source of hit movies. Jobs also became a Disney board member and its largest shareholder. Periodically he would call Iger to say, “Hey, Bob, I saw the movie you just released last night, and it sucked,” Iger recalls. Nevertheless, the Disney CEO says that having Jobs as a friend and adviser was “additive rather than the other way around.”

Bom, o artigo vale a leitura. Acesse aqui.

Ω

Disney adquire Lucasfilm

Por essa ninguem esperava. Disney vai comprar a Lucasfilm por $4.05B de obamas, sendo uma metade paga em dinheiro e outra em 30M de shares:

Global leader in high-quality family entertainment agrees to acquire world-renowned Lucasfilm Ltd, including legendary STAR WARS franchise.

Acquisition continues Disney’s strategic focus on creating and monetizing the world’s best branded content, innovative technology and global growth to drive long-term shareholder value.

Lucasfilm to join company’s global portfolio of world class brands including Disney, ESPN, Pixar, Marvel and ABC.

STAR WARS: EPISODE 7 feature film targeted for release in 2015.

A dúvida é se o Episódio VII terá uma história inédita seguindo, obviamente, os rumos de Retorno de Jedi ou se adaptarão algumas das histórias já apresentadas em HQ e pocket books. Acredito que seguirão com a saga de Luke Skywalker.

A única coisa estranha nisso tudo é assistir um filme do Star Wars sem aquela entrada clássica da 20th Century Fox.

Ω

Prometheus que ninguém viu

Em 1986, Ridley Scott lançou Aliens, o primeiro filme de uma cinessérie fantástica. Em 2012, fazendo uso do mesmo universo, Ridley Scott lançou Prometheus. O filme é muito bom, salvo alguns plot holes que valem um post exclusivo.

Sabemos que o roteiro foi finalizado por Damon Lindelof (criador de Lost), mas foi originalmente elaborado por Jon Spaihts que agora foi entrevistado pela Empire. Se você é como eu que ainda em busca algumas explicações sobre o filme, sugiro lerem.

But the most dramatic change was the removal of the xenomorph from the film. That was a shift that happened at the same time as I stepped off the film. A lot of that push came from the studio very high up; they were interested in doing something original and not one more franchise film. That really came to a head at the studio – the major push to focus on the new mythology of Prometheus and dial the Aliens as far back as we could came down from the studio.

Como era de se esperar, o filme teria maior relação com o universo de Aliens se não fosse o pitaco dos executivos do estúdio que queriam começar uma nova franquia e não fazer mais um “prequel” de Aliens. Ainda assim, não vejo como problema ter dado mais contexto a Prometheus utilizando mais elementos de Aliens.

Vou assistir o Blu-ray para ver os comentários e descobrir mais detalhes de Prometheus.

Ω

The Dark Knight Rises, director’s cut?

Esse boato tá correndo a interwebs desde ontem e, apesar de achar improvável (Nolan nunca fez um directors cut), torço muito para isso. Mas quem disse que torcer realmente adianta?

Segundo o site Nuke The Fridge, o blu-ray do filme deverá conter uma versão do filme com a edição do diretor, cheio de cenas deletadas. Como reportado pelo Judão, uma das tais cenas seria a origem do Bane. A tia dos figurinos revelou que a cena existia e que ficaria espantada se não aparecess no filme. Na prática, relamente não apareceu, então, ONDE CARALHOS ESTÁ A CENA?

Num post do site Badass Digest, que parece conectar com o boato do Nuke The Fridge, suspeita que como o Christopher Nolan queria repetir o uso obsceno das câmeras IMAX no Dark Knight Rises, depois do bom resultado em TDK, ele precisou editar o filme para conter no máximo 165 minutos de projeção. Limite este o máximo que um filme deve ter para ser exibido em IMAX sem problemas (a projeção além disso fica inviável por conta da quantidade de rolos de filme que os projetores aguentam. Digo rolos de filme, porque Nolan não filma nada digitalmente).

Se tudo for verdade, até porque a internet é para se confiar, podemos ter uma nova versão de TDKR com mais de 3 horas de duração, o que faz pensar se não teria sido melhor manter o material “supostamente” deletado/editado e ter sido dividdio o filme em duas partes.

No fim, essa versão do diretor me interessa para explicar algumas passagens no filme que parecem que foram dadas. Será que explicam a cretinisse do Blake ter descoberto que Bruce Wayne era o Batman pelo o olhar de órfão dele? Ainda penso nisso e, mano, tomanocupalá.

Ω

Ben Affleck approached to direct WB’s Justice League

From Variety:

With Christopher Nolan declaring himself out of the running for JUSTICE LEAGUE, Warner Bros. has approached another of its go-to directors in Ben Affleck, who’s expected to discuss the project with studio brass in the coming days, multiple sources tell Variety’s Jeff Sneider and Justin Kroll.

I could see this happening.