O que aconteceu em Dark Knight Rises

No último dia 3 de março, o Latino Review reportou que, numa clara resposta à Marvel e o sucesso dos Avengers, Christopher Nolan tinha sido contratado pela Warner Bros para tomar as rédeas do universo DC e coordenar todas as adaptações dos filmes da DC para a telona.

Ainda na notícia bombástica, El Mayimbe disse que Christian Bale voltaria como Batman num possível filme da Liga da Justiça ou num filme com Superman (World’s Finest).

A primeira parte desta história pode até acontecer, mas não veremos Christian Bale como Batman, pelo menos não o Batman construído por Christopher Nolan. Quer saber por quê? Tudo foi explicado no último filme do Cavaleiro das Trevas.

Mesmo com atraso, abaixo segue a minha interpretação dos acontecimentos do filme. Não há como destrinchar a história sem contar elementos e tramas do filme. Portanto, se ainda não assistiu o filme pare de ler aqui se não quiser que as surpresas do filme sejam estragadas.

A minha crítica tem mais a ver com as metáforas e discussões políticas do filme do que a continuidade (ou os erros).

Avisados? Vamos lá.

The Dark Knight Rises

O filme começa com um grande questionamento: o que acontece com políticas conservadoras que reinforça a lei e ordem através da força? A resposta é que tal política (sistema penal severo) destrói as próprias pessoas que a aplicam. Veja que sem ter com o que combater, Bruce Wayne vira um recluso destruído pelo conformismo, enquanto o Comissário Gordon também será destruído (com a eventual demissão que o ronda). Não há mais crime a ser combatido (pelo menos aqueles violentos e de rua – tráfico, crimes violentos, prostituição, roubo etc.) e com isso nós ficamos incomodado com a aparente destino dos dois personagens que mais simpatizamos na trilogia. Com 10 minutos de filme o dilema do primeiro ato já está estabelecido: aqueles que erradicaram o crime não gostariam de ter o feito.

Assim, numa cidade (ou mundo) onde não há crime violento, a polícia parece não saber como redirecionar a sua atuação e combater crimes de colarinho branco, financeiros como o Daggett. Engraçado até é o uso do Comissário (no topo da hierarquia da polícia) para procurar um deputado desparecido. Mais engraçado ainda é que ninguém se incomoda com a aparente assédio sexual da Selina Kyle pelo mesmo deputado.

Como resultado desta política, onde não controle algum sobre os crimes financeiros, a população de Gotham vive numa cidade cada vez mais pacífica mas, em contrapartida, sofrendo uma crescente desigualdade econômica.

Essa dinâmica é um claro reflexo de espelho da situação encontrada no filme da trilogia, onde Gotham City vive ainda do boom econômico iniciado pelo Clã Wayne e ainda luta para limpar uma cidade com crimes e criminosos em todos estratos da sociedade. O que acontece em Dark Knight Rises é justamente o contrário, a falta de crime é justamente o que leva à uma economia que falha em ajudar a cidade a prosperar. Ra’s al Ghul falou isso no primeiro filme:

Over the ages, our weapons have grown more sophisticated. With Gotham, we tried a new one: Economics. But we underestimated certain of Gotham’s citizens… such as your parents. Gunned down by one of the very people they were trying to help. Create enough hunger and everyone becomes a criminal. Their deaths galvanized the city into saving itself… and Gotham has limped on ever since. We are back to finish the job. And this time no misguided idealists will get in the way. Like your father, you lack the courage to do all that is necessary. If someone stands in the way of true justice… you simply walk up behind them and stab them in the heart.

Gordon ainda tenta manter a lenda do Batman como um fiapo de esperança para que a criminalidade não retorne ligando o bat-sinal de tempos em tempos, mas a única ajuda para a cidade são os eventos beneficentes (que vemos na mansão Wayne no começo do longa), numa tentativa de preencher a distância entre os muitos ricos e os extremamente pobres.

É neste cenário claramente influenciado pelo Theory of Justice (1) de John Rawls que surge Bane, um terrorista que escapou da prisão Pit (alusão ou Lazarus Pit) do oriente médio e foi ser treinado por um terrorista árabe Ra’s al Ghul, o mesmo que treinou Bruce Wayne. Logo vemos que Bane se preparar nos esgostos de Gotham e o seu quartel-general logo abaixo do arsenal (e extensão da Bat-caverna) do Batman na Wayne Enterprises. Claramente a ideia passada é o surgimento de uma nova sociedade para substituir a atual sociedade decadante.

O primeiro ataque de Bane começa usando seus soldados se perfazendo de trabalhadores em empregos clássicos da população proletária (mensageiro, engraxate…) para atacar a bolsa de valores de Gotham (praticamente idêntica a NYSE). Novamente o choque de sociedades é evidente, a população pobre tomando de assalto a riqueza da pequena parcela enriquecida. Assim, tomam o controle de toda a fortuna de Bruce Wayne, o homem mais rico da cidade que, por sua vez, se sente compelido a sair das sombras e enfrentar um inimigo à altura, coisa que não acontecia desde a aparição do Coringa 8 anos atrás.

Com a era do Comissário Gordon chegando ao fim, a atual polícia se perde em se preocupar em capturar o Batman do que os “assaltantes” num claro sinal de falta de propósito e despreparo do Estado em se adaptar ao novo mundo. Assim como o sucesso do Batman em acabar com o crime o fez desnecessário, a sua ausência fez o crime reaparecer e tornou o Batman novamente relevante. Batman precisa de uma cidade violenta e, no fim, ele não tem interesse em limpar a cidade dos criminosos.

Bane se alia a Daggett, membro da classe capitalista sem escrúpulos, ajudando-o a tomar o controle da Wayne Enterprises, para em seguida (e com um pouco de violência) por as mãos numa aparato nuclear idealizado para produzir energia limpa, mas que serve como uma arma nuclear (novamente culpa do Batman). Em seguida, Bane acaba com o estado repressor e liberta todos os presos de Blackgate Prison (2) e institui a lei-e-ordem (sistema penal severo que não dá oportunidade de ampla defesa ao acusado). Obviamente, o regime de Bane se torna uma anarquia chegando ao ponto do Scarecrow presidir julgamento de banqueiros com uma pegada dura e sem um sistema processual justo, assim como Harvey Dent fez em The Dark Knight.

Numa tentativa desesperada, a polícia tenta, em vão, enfatizar que todo poder, em última análise, vem da força do punho, e parte para um confronto em plena luz do dia com Bane e sua trupe vanguardista.  A situação piora quando a Talia, antes aliada de Bruce Wayne, revela que é filha de Ra’s al Ghul e que foi quem arquitetou a destruição de Gotham com o explosivo nuclear como era o desejo de seu pai.

Batman finalmente se dá conta que ele é o único culpado por criar esta nova classe de criminosos que ele tanto tenta acabar, exatamente como previsto pelo Coringa:

I don’t want to kill you! What would I do without you? …you complete me!

A última cartada do Batman é fingir a própria morte ao levar a bomba para explodir em alto mar. Ele, eventualmente, termina o filme na Itália onde lhe é permitido, novamente, a levar uma vida tranquila e bem abastada de playboy. Assim mesmo como era antes de se tornar o Batman. The Dark Knight Rises termina exatamente como começou Batman Begins.

O filme poderia ter tratado melhor a trama do John ‘Robin’ Blake que, durante o conflito entre o bem e mal nas ruas de Gotham, se deparar com o vice-comissário Foley que preferiu não fazer nada para proteger a população da cidade do que se arriscar numa batalha contra os opressores da cidade.

Enojado, Robin abandona a carreira de policial, joga fora o distintivo e parece assumir o manto do Batman e continuar com a teatralidade do medo e uso de táticas de vigilante no combate ao crime.

E esse último desfecho não é uma ponta deixada para eventual série de continuações ao encaminhar o John ‘Robin’ Blake para a bat-caverna. Entendo que esta última passagem é uma simbologia que a luta do Batman é interminável, onde a cidade precisa de um vigilante para diminuir o crime, assim como o Batman precisa do crime para que a sua vida tenha propósito.

The Dark Knight Rises realmente termina a saga de mais de 10 anos do Batman, e trazer Christian Bale de volta ao papel do Batman vai contra tudo o que filme trabalhou para estabelecer. Batman era um mal necessário, mas acabou se mostrando mais mal do que bom e a mera existência de um vigilante acima da lei demonstrou que  faria mais mal do que bem à sociedade. Como visto, o Batman depende da existência de criminosos cada vez mais malucos para justificar a sua existência e o uso desmedido de força e justiça para limpar a cidade. Sem o Batman pelo caminho, Gotham voltaria a ser corrupta e perigosa, mas facilmente administrável, o que não deixa de ser um bom negócio se comparadao ao auge da loucura e violência destemperada experimentada em Gotham durante os eventos de The Dark Knight.

Aliás, The Dark Knight merece uma análise com mais calma dado a grande quantidade de metáforas e o uso constante da teoria do jogos.

Ω


  1. Theory of Justice é a magunus opus sobre filosofia política e ética escrita por John Rawls onde tenta resolver o problema da distribuição equilibrada da justiça (a distribuição socialmente justa do que a sociedade tem de bom para oferecer) utilizando uma variação do conceito do contrato social. O resultado desta obra é conhecido no artigo conhecido como “Justice as Fairness“, onde Rawls obtém dois princípios: o princípio da liberdade e o princípio da diferença.
  2. Só a menção desta prisão explica a não aparição do Coringa que, aparentemente, estava preso sozinho no que sobrou do Arkham Asylum por ser um criminoso altamente violento e temido por todos, inclusive os outros criminosos.
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Superman versus Evil Corporates

Sempre fui fã do Superman, desde a minha infância no Canadá. E, hoje em dia, sou um ávido colecionador de comicbooks do Homem de Aço. Na verdade, tem cerca de 20 anos que coleciono as revistas americanas do herói.

Sei que nada disso lhes interessa, mas serve como ponte para a saga dos herdeiros de Siegel e Schuster (criadores do Superman) contra a DC Comics/Warner Bros. Desde 1997 venho acompanhando (tentando) a luta para recuperar os direitos de copyright dos criadores do personagem e sempre achei estranho a WB conseguir “fugir” do pagamento de lucros cessante devidos desde 1997.

Hoje li no Moviehole uma carta aberta aos fãs do superherói escrita pela filha de Jerry Siegel, a qual me deixou triste por ver uma luta durar uma vida inteira resultar em justiça vazia. Acredito ser importante divulgar a carta na íntegra e que a Verdade, Justiça e o American Way sejam de fato cumpridos à risca.

Dear Superman Fans Everywhere,

My father, Jerry Siegel, co-created Superman as the “champion of the oppressed … sworn to devote his existence to helping those in need!” But sadly his dying wish, for his family to regain his rightful share of Superman, has become a cautionary tale for writers and artists everywhere.

My family’s David and Goliath struggle against Warner Bros, the media conglomerate, goes back to April 1997, when my mom and I exercised our clear right under the Copyright Act to achieve my dad’s dream of recovering his copyrights. In April 1999, my dad’s half of the original Superman rights reverted to us, entitling our family to a significant share of Superman profits, which Warner/DC Comics refused to pay. For over thirteen years they have fought us at every turn, in and out of court, aiming to make recovery of the money they owe us so impossibly difficult that we would give up and settle for peanuts.

We refused to be intimidated despite my elderly mom’s heart condition and my multiple sclerosis. In 2008 the U.S. District Court ruled that my mom and I had successfully recaptured my father’s Superman copyrights and were entitled to Superman profits since April 1999.

Angered and alarmed by this defeat, Warner Bros resorted to a despicable old trick: diverting attention from the legal merits of our case by personally attacking our long-time lawyer, Marc Toberoff. Through DC, the media giant filed a lawsuit against Mr. Toberoff, my family and the Estate of Superman’s co-creator Joe Shuster, falsely claiming “unfair competition” and that Toberoff interfered with an out of court offer that Warner tried to push on my mom and me in early 2002 – an offer full of studio accounting traps that we refused to sign before we even knew Mr. Toberoff.

Warner Bros possesses documents stolen from my attorney’s office which mysteriously ended up on the desks of three top Warner executives. Warner claims it has no evidence whatsoever as to when these large packages arrived. According to Warner, the thief also included a cowardly anonymous letter that vilifies our attorney and mischaracterizes the privileged attorney-client communications enclosed. In a disgraceful violation of my privacy, Warner’s lawyers attached this nasty anonymous letter to a publicly filed complaint and leaked it to the media.

In the midst of this sideshow, my mom, the original model for Lois Lane, passed away last year at 93, still determined to keep her promise to my dad. She never got to relax and enjoy any proceeds from the crusade she fought until her dying day.

Now the torch is in my hands and I won’t be silent any longer about Warner Bros’ tactics. I refuse to be bullied or deterred from enforcing my farnily’s rights, and fully support my attorney who has tirelessly defended them. Warner Bros’ smear campaign has only made me more determined than ever. We have the right to the attorney of our choice, which is none of Warner’s business…

What Warner Bros apparently doesn’t realize is that despite their tremendous power, I will NEVER give up on my parents’ dream of rightfully restoring my father’s rights to his family.

Would Superman, the embodiment of “truth, justice and the American way,” let Warner Bros, DC Comics, and their gang of attorneys get away with this? Not for an instant!

Laura Siegel Larson
Los Angeles, California

Ω